quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Desenhar

O nosso "traço", isto é, as características principais das formas que colocamos no papel, são quase sempre as mesmas. Conseguimos, de certo modo, ser identificados pelo tipo de desenho que fazemos. Isto, obviamente, num universo restrito.

Parte curiosa que vou tentar meditar. Onde é que o modo como desenvolvemos o nosso traço pode estar o meu eu. Esta é muito arriscada. Vamos por partes:

Ao admitir que o traço reflicta a minha pessoa, ou personalidade, implica que os meus gestos, a minha motricidade finíssima, ou seja o detalhe seja, de certo modo inconscientemente emocional. A mão, o braço e a mecânica destes obedecem à minha ordem motora mas com uma indicação "a priori" do meu eu que está para além da minha vontade. E indo ainda mais longe, neste tipo de observação, do que eu faço, há uma parte que não me pertence. Pertencerá, por ventura à parte que existe em nós em sendo quem somos, não nos pertence.

Estou a ficar fora de pé. Vou para dentro!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Mais desenhos


A casa de Lourenço Marques


Uma casa no Arco do Cego


Na paragem do Autocarro


Dentro do autocarro


Pobre joanete....

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Sopra


Sopra
Com força
Até veres pontinhos brancos
Que acendem e apagam
Fecha os olhos
E verás
A tua alma a piscar

Ataque surpresa

Trabalho num quinto andar. O que significa que tenho que apanhar o elevador para ir até ao meu pequeno espaço. Cruzo-me, por esse facto com inúmeros colegas, companheiros e terminologias semelhantes. Hoje não foi diferente. Vinha, então a chegar e sou acompanhado por dois fumadores que foram até ao exterior do edifício carregar o seu sangue com a preciosa nicotina e demais alcatrão. Mal entramos no elevador, um deles tem um ataque violento de tosse ( vá se lá saber porquê) e todo o pequeno pedaço de oxigénio que se encontrava naquele elevador ficou conspurcado não só das excrescências do indivíduo como, e também, do odioso odor que expele um fumador. Sobretudo quando satisfez recentemente o seu vício.

Encontro-me num estado de coma momentâneo. Voltarei ao mundo dos vivos em breve.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Será?

"Só se podem fazer três coisas com uma mulher - Podemos amá-la, sofrer por ela ou fazer literatura." Lawrence Durell

Em síntese temos 3 formas de amar essa mulher que, obviamente, não é a mulher em sentido lato, mas A mulher. Amando-a para quando se completa. Sofrer quando se perde ou o espaço cria a distância. Fazer literatura é amar com a mente e não com o coração. Mas é sempre amor.

Curiosidades

Recebo da internet uma série de quadros de dias chuvosos. Noto um dado comum em todos. Não, não é a chuva! Isso é evidente dado o tema dos quadros! Há, diria, em dois terços uma silhueta que se desloca para a profundidade do quadro com um chapéu de chuva aberto. Seguramente o autor não quis deixar a mais pequena dúvida no observador.

Deixo, ainda, outra nota, a personagem é quase sempre, senão sempre feminina e de saias. O bicho homem é danado para o detalhe!

Meditação

"Como todos os egoístas, eu não tolerava viver só." Lawrence Durell

É curiosa esta frase. O egoísta não é obrigado a ser uma pessoa solitária. Aliás, a noção do seu egoísmo surge na medida em que ele vive em sociedade, pois que de outro modo não era possível perceber como o podia. Para se ser egoísta tem que se ser em sociedade, logo é evidente que um egoísta não tolera a solidão, tem que estar acompanhado para poder agregar à sua volta a força da sua centralidade.
É curioso como uma frase tão evidentemente óbvia, dita deste modo parece um contra-senso.
Há mais, parece-me que muito mais para este quarteto de Alexandria.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

MNAC III - arte lerolero

A expressão lerolero vem de um site na net com esse nome, onde se pode escolher um tema e se diz quantos parágrafos se quer ver escrito texto e vai daí, temos um relatório cheio de frases interessantissimas, mas completamente vazias de conteúdo, pois que os sujeitos e os predicados não vivem no mesmo universo, não são co-relativos. Ou então porque são preposições em que o primeiro principio nada se conforma com a conclusão. Em resumo, é lixo, lixo a metro.

É assim que eu vejo, entendo e capto parte considerável da "arte" contemporânea, bem como os seus promotores. São lerolero. Lixo cultural que acaba por abafar quem tem valor e qualidade.

MNAC

Ou seja Museu da Arte Contemporânea.
Reabriu com a sua colecção permanente. É sempre maravilhoso e gratificante apreciar a pintura portuguesa do século XIX e princípios do século XX. Uma exposição que, sendo relativamente pequena, dá uma perfeita amostragem da magnífica qualidade da pintura portuguesa.

Há, todavia, e como sempre, pequenos nadas que fazem bastante diferença. Não estava lá um único exemplar de Dom Carlos. Sim, era o Rei de Portugal, e talvez por isso mesmo merecia um lugar de destaque. Não vi, também nenhum quadro de Maria Helena Vieira da Silva, nem Noronha da Costa, nem Maluda, nem Cargaleiro, nem Fernanda Lapa... enfim. A amostragem peca por ser curta e ter estas faltas.

Corre também uma exposição absurda. Uma série de coisas, entre elas um vidro pintado com esta frase "uma pessoa atira uma pedra, muitas pessoas atiram muitas pedras". Acho que já vai sendo altura das pessoas ligadas à cultura e ao espaço de serviço público pararem com esta ilusão e terminar definitivamente de chamar arte a alguns espasmos de algumas pobres criaturas. É desagradável, mas não é arte aquilo que alguém assim lhe chama, mas algum que tenha qualquer coisa a mais, algo que nos prenda e faça pensar, que nos agite a alma. Ora a exposição só nos agita o esófago em incessantes contrações

MNAC II - Sem título

Quadros cujo título é "Sem título"

Quando na parede, no chão ou na base da "obra de arte" o letreiro a identificar a peça com a descrição "Sem título" fico logo com dúvidas que explico.

Se o autor não lhe ocorreu um título para o que fez significa que não sabe o que fez. Se não tem título, não tem nada. Ninguém é um sem nome. Não há coisa sem um nome. O nosso léxico é tão rico que há sempre um termo que possa denominar o que quer que se represente. E mesmo que não seja uma coisa, que seja uma emoção, um sentimento ou um afecto, tudo isso tem representação nominal, pelo que acho que é a primeira evidência do logro.
Se o autor é tão calão que nem o nome quer dar ao que faz, é porque, calhando, a coisa nem vale a pena ter nome.
Algo que não tem nome, é porque não tem sujeito, não tem alma, é algo que não existe. Se não lhe posso dar um nome, que raio de coisa pode ser senão nada? E quem é que faz nadas? E para que é que se colocam na parede nadas?

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Desenhos

Hoje no Pinterest mais uma série de bonecos.
O tempo não dá para tudo, mas vai dando para boas satisfações como de vez em quando fazer uns bonecos.

Dantas - o do Almada

"Ele - O seu perfume perturba-me.
Ela - Abra a janela.
Ele - Os seus olhos fazem-me mal.
Ela - Não tenho outros, meu amigo.
Ele - Onde poderei vê-la, falar-lhe?
Ela - Aqui. Diga o que quizer.
Ele - Não me compreende.
Ela - Compreendo-o de mais."

Júlio Dantas - "Como amam as mulheres"

O que me divertiu este texto. Lembra-me de tantas conversas que já tive que se torna difícil fixar a mulher que melhor me respondia neste tipo de linguagem. Um luxo de dialéctica.
O eterno jogo da sedução.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Desenhos


Com um olhar de falta de paciência imensa!


Uma casa que tem um bom pedaço do meu passado. Primeira tentativa. Hei-de voltar a desenhar.


A casa dos meus avós paternos que já não existe. Neste momento tem em seu lugar um prédio de 3 andares. Chamemos-lhe o desenvolvimento não sustentado.


O meu trisavô by myself.

Mais uma achega

Lendo o livro Bel Ami de Guy de Maupassant começo a ficar verdadeiramente desolado. Li os contos, traduzidos por Pedro Tamen e achei graça à leveza da escrita e ao animadas que as histórias eram. Havia também o lado maroto das histórias, ainda que com a candura do século XIX. Foi uma simpática companhia. Vi que este Bel Ami foi o único romance que escreveu. Começo a perceber porquê.

O romance não tem profundidade. Segue um ritmo simpático e divertido, apresenta Paris dos finais do século XIX, os seus boulevars, as recepções, os jantares, o modo como se fazia a corte, a grande importância do parecer. E o parecer chega a ser de tal modo importante que os personagem deixam de ter vida possível para passarem a ser meramente personagens literários, figuras de qualquer coisa que não se atinge o objectivo ou fito.
Não há moral subjacente, ainda que todos os personagens sejam profundamente morais, não metem mas pecam com todo o vigor que Deus lhes deu. Um ou outro rebate de consciência antes da queda e nada mais. Após a queda o acto fica límpido e certificado. Deixa de haver moral. Passa a ser um facto. Deste texto surgiu um filme com o quebra-corações da época, por ventura, para justificar um eventual sucesso comercial que não se verificou.

Estou desolado. Tinha boa impressão do autor, tanto mais que fora o motivo pelo qual Pedro Tamen perdeu tempo a traduzir, e fico pendurado a um terço do fim do livro com uma vontade imensa de o atirar para um canto.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Tarefa inglória

Tentar reproduzir, em desenho, uma foto magnífica. Para além de inglória, é perfeitamente estúpido. Porque raio tentar repetir o que o fotografo já disse de forma magnífica? Manias que eu tenho!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Jardins

Quando era novo brincava nos jardins. Não havia pulgas na relva. Poucos, quase nenhuns cães havia a serem passeados. As famílias eram grandes. Havia sempre um irmão com a minha idade. Eram três, quatro, cinco e até oito! Os jardins eram espaços onde corríamos, jogávamos à bola e rebolávamos.

Hoje as famílias são pequenas. Dois, no máximo três crianças. Não há jardins para brincar, estão sempre com pedófilos à espreita, ou pior. E os jardins deixaram de ser das pessoas e das crianças. Passaram a ser propriedade dos cães, substitutos das crianças. Passeiam os cães e fecham as crianças nos projectos de vida e de sucesso. De dinheiro, viagens, computadores, carros e roupa. Deixaram de se rir. Há, contudo, ainda alguns que limpam as fraldas dos cães.

A cidade está a morrer.

Ir

Ir atrás de uma vontade
Sentir o frenesim
O pulsar de um sangue quente
Um reforço na alma

Ir, ir e ir sempre
Atrás desse sonho
Que é vontade construída
Efeito da alma atenta

Documentário

Gostava de filmar as moradias do bairro do arco do cego uma a uma. Depois ir ao Arquivo da CML e ver os desenhos originais. Num terceiro passo perceber quem autorizou as aberrações que foram feitas. E no fundo perguntar para que serve o IGESPAR?

Mais um projecto de filme

Falta tempo

Ler, escrever, desenhar, fotografar ou filmar? Gosto de tudo e o tempo que dedico a cada um destes magníficos hobbies não deixam tempo para os outros. Se vou desenhar não leio nem escrevo. Se estou a fotografar, as ideias ficam e registam-se. Para filmar preciso de fazer o script ( story board ou o argumento e plano de acção).

Há alturas em que dava jeito desdobrar-me.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Curta

Uma sala de trabalho ampla. Vários postos de trabalho. Tudo normal, conversa, papeis que se trocam, telefones que tocam. São 11 da manhã.
Cena seguinte.
O relógio muda para as 4 da tarde. Todos seguem o discurso de tarde excepto uma pessoa que fica perplexa com a tão rápida mudança de hora.
Começa com um discurso desconexo com os outros, a insistir que ainda é de manhã. Que ainda não almoçaram, que os relatórios da 1 ainda não foram feitos.

Duas saídas possíveis. Uma brincadeira de toda a equipa, ou ninguém deu pelas horas em que ela esteve sem acordo de si.

Mais um passo


O que podia dizer? Porque é que estávamos aqui? Nesta situação? Como?
- Também ficaste sem casa Jeremias?
- Acho que sim
- Achas?
- …
- Não sabes… Mas não tens ar disso
- Disso? O quê?
- De quem se tenha perdido.
- Perdido….
- Sim, em coisas chatas, sabes o que falo.
- Sim... claro. Mas a verdade é que me perdi mesmo.
- Ah…
- Não. Perdi-me e estive internado ali ao fundo. E aponta para o antigo Hospital Júlio de Matos. Acho que fiquei ausente. E medicado. Bastante
- Se calhar tiveste sorte.
- Porquê?
- A maior parte foi-se embora. Mas mesmo. Partiram. Só cá deixaram os velhos.
Começava a entender o mundo que o rodeava. Estivera anos ausente. Uma pancada, ou uma queda. Já ninguém sabia bem a razão pela qual estiver internado. Nem se lembrava ao certo a sua idade. Vira os registos no hospital. Coma. Coma induzido. Trauma. Sem reflexos. E a terapia, a recuperação dos movimentos, da sua independência e ninguém familiar. Apenas registos. Papeis que diziam dados e gráficos. Nada de si ou do seu passado.
- Também os meus se foram embora.
- Então estás sem ninguém?
- Estou
- Eu também.
A solidão em que vivia era uma solidão no mundo. O espaço era-lhe progressivamente mais seu, mais conhecido, era, aos poucos um mundo. Mas as pessoas eram vagas referências. Por vezes aqui ou ali uma cara que lhe era familiar, um rosto de um qualquer lugar que não o conseguia colocar. A princípio esta impressão causavas-lhe um profundo mal estar. Ser estranho na sua pele, no seu mundo. Tudo o que lhe passava à frente era real e ao mesmo tempo não existia. Não lhe dizia nada. Com o tempo esse buraco de tempo foi ficando menos fundo, ao mesmo tempo que ficava mais longe. Ia ganhando espaço à sua volta. Pontos de referência.
- Sabes, Joana…
- Sim.
- Acho que desaprendi tudo.
- Também me sinto assim, mas é só às vezes. Mas, diz-me, o que se passou?
Sabia lá ele o que se tinha passado. Havia um enorme espaço branco na sua memória, depois um buraco preto. Depois foi a luz a entrar nos olhos, começar a perceber as sombras. Voltar a fazer tudo. Falar, andar, a sua higiene, comer… tudo.
Joana olhava com os olhos muito abertos. Estava espantada, surpresa. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Seguindo

Encostado na ponte, sentia o vento a revolver-lhe a cara e a desfazer o que restava de ordem no seu cabelo. Estava a ficar frio. Soltou-se e seguiu em frente, até ao fim da avenida. Por si cruzava-se tristeza e melancolia. Antigamente andava de olhos fixos no chão, deixava que o cabelo tombasse sobre os seus olhos para não olhar de frente com quem se cruzava. Nos últimos tempos todos pareciam andar assim. Havia nas pessoas a falta de luz. Já não se afastavam. Chagavam mesmo a cruzar-se e a tocarem-se. Os olhos pediam desculpa com a mesma tonalidade de quem agradece ou dá um aperto no braço para impulsionar ânimo.
Viveu sempre alheado ao mundo. Vivia no seu mundo, nas coisas que o cercavam e que com ele tinham sentido. Não dera conta do que se passara. À sua frente um rosto que lhe era familiar. Sabia que havia naquela cara algo que também vivia na sua memória. Abrandou o passo.
Ela andava devagar, os braços estavam tombados e as mãos enfiadas dentro dos bolsos de um casaco que já teve vários donos. Ela parou de repente. Ergueu a cara e por trás de uns caracóis negros riscados de linhas brancas estavam uns olhos azuis mar.
- Joana? Disse Jeremias tão baixo que nem a si próprio foi capaz de se ouvir.
Ela repetiu o seu nome sem emitir um som. Dos seus lábios gretados nasceu primeiro o beijo que o jota faz nos beiços e depois a ana.
- Jeremias... - quase no mesmo som.
Fixa o olhar e franze a testa. Repete o beijo e a ana.
Aproximam-se.
A sua voz sonoridade e, ao mesmo tempo, uma vergonha inusitada.
- Chamo-me Jeremias.
Ela inclina ligeiramente a cabeça e após uma leve pausa, responde devagar, quase soletrando.
- Jeremias... Quem diria...
- ..sim...
E inclina-se para a cumprimentar.
 

De repente

Numa noite de Outubro, em que o vento e a humidade vinham de norte e deixavam já antever o que se vinha preparando até ao tempo de voltar a aquecer, Jeremias caminhava de volta para o seu canto. Arrastava-se pela Avenida de Roma e cruzava os passos de tantos outros, passos seus ou de outros que como ele viviam onde calhava. A cidade deixara de ser sua, a rua que era um ponto geográfico, uma orientação que mostrava onde tinha as suas raízes deixara de ser isso para passar a ser simplesmente casa. E casa era uma palavra grande de mais para o que na realidade era, a rua era o seu canto.
Tantas vezes havia feito a mesma avenida. Para cima e para baixo, cruzava-a por qualquer ponto. Todas as manhãs era ponto de partida para um destino que ao fim do dia se verificaria. Tanto poderia ir para a baixa, como para o Lumiar ou até Algés. Muitas vezes perguntava-se se não havia acontecido um tempo em que alguém fizera os mesmos percursos? Agora tinha estradas, ruas, carros, e muitas pessoas, mas já houve tempo em que a distância era a mesma só que habitada pelo silêncio do vento e pelas cores dos campos. Tal como agora andava a sua cabeça. Atenta ao vento e à cor dos campos que passava na sua frente. As casas e os carros deixaram de ter relevância.
Na ponte da linha de comboio via o formigueiro dos que ainda tinham para onde ir. Que se apressavam para apanhar os transportes, o comboio, o autocarro ou apenas o semáforo que estava agora verde.
Tempo. O que era isso? Tinha o tempo do sol. Enquanto fosse dia era tempo de ir. E ia até o sol se começar a pôr, sendo então tempo para voltar. Esse era o seu tempo.

meditação

Julgamos sempre com base no nosso afecto.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Domingo de Inverno

É domingo de inverno quando se fica na cama a fazer o segundo sono da manhã e lá fora chove e faz frio. Com o edredon até às orelhas abafo-me nesse quente onde os olhos fechados lêem a alma toda de fio a pavio à procura ou de sono que a embale, ou de ideias para tirar o corpo daquele forno delicioso.

E já é tarde.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Ser-me

Com a mão levantada
Erguida mesmo
Ambição de céu
Aberta, pronta.

Numa linha recta
Dos pés ao Sol
Pronto para o mundo
Disposto à vida

E no chão raízes
Feitas de mil mares
Ilusões sem fim
Vontade de tudo

É tempo
Vontade
Querer
Ambição

Ser-me!

Desolado

Quando era mais novo vivia revoltado com os intelectuais do meu país. Eu adoro o meu país. Tenho Portugal em toda a minha alma. É um valor tão forte em mim que existe para além do meu afecto, da minha intenção. E, sempre que lia a literatura do século XIX e XX, havia um desprezo foleiro sobre o nosso povo e a nossa bela pátria. E era uma coisa que me irritava para lá do razoável.
Com o tempo, infelizmente, a literatura não mudou e o bombo da corte continua a ser o zé povinho do Bordalo. No outro dia a minha querida Agustina também lhe juntava mais uma intenção! Ninguém me salva a alma!

Ontem assisti ao vivo e a cores uma representação da realidade portuguesa. Um julgamento. A minha alma arrasta-se de desolação. É tudo verdade! Todos os brilhantes intelectuais que leio como quem procura soluções e vida estão cheios de razão. Somos uma encenação impossível. Uma peça de teatro que ninguém consegue ver, entender ou perceber. Não tem princípio nem fim. Todos os actos são sempre o mesmo acto.

Desolação
Imensa.

Estado de alma

Empurrar a alma
Fazê-la acontecer
É tarefa de herói
Num anoitecer

É mais fácil não ser
Deixar escorregar o tempo
Ir indo na sombra dos dias
E interiormente perecer

Mas como se morre
Quando se nasce morto
Se não há entusiasmo
Nem sangue na vontade


Remorso

Há uma dor funda
Que fere a alma toda
Do erro que se faz
E pior, que se insiste.

Uma vontade que não é
De um capricho inútil
Vazio de si mesmo
E que persiste.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Televisão

Um programa sobre a genealogia de pessoas com alguma projecção mediática. Uma actriz de seu nome Maria João Abreu. Chora ao saber descendente de D. Pedro e D. Inês de Castro.

Não comento mais para não pecar.

O tempo presente

Depois de um carnaval sem tempo nem o que é dado nestas circunstâncias, eis-me a entrar na quaresma. E a quaresma é a contagem dos quarenta dias que antecedem a festa que faz da religião católica diferente, ou seja, a celebração da morte e ressurreição de Cristo.

Este tempo, estes quarenta dias, onde entre outras coisas, se vai apelar à renúncia, seja ela de que índole for, é, por isso, um momento de preparação. E devemos preparar a alma para nos encontrarmos com o nosso eu, com o pedaço de Deus que nos habita.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Nem no Carnaval

"Quem vota ou é um transgressor, pequeno ou médio, ou está para o ser. A transgressão é o óleo da máquina política; faz com que esta role melhor, sem parecer que depende da lei da gravidade." Agustina Bessa-Luís

Eu já nem sei o que diga. Cada vez que tropeço numa destas frases da Agustina só me dá para ficar cada vez mais danado e incomodado por ver que as gerações mais novas se vão privar de ter estes momentos únicos de comunicação com alguém absolutamente superior.

Na frase que transcrevo, pode-se resumir que o homem adere por interesse. O mesmo interesse levou ao afastamento desta autora. Qual foi esse interesse?

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

caramba

"Há um sabor de traição num simples desacordo, até de etiqueta." ABL

E, se esse desacordo acontecer dentro de um casal... é mil vezes pior que traição, pois que nessa, pelo menos houve prazer!

Agora é a vez do erotismo

"A mulher quando ama, adora. Quando o homem ama, despreza, porque alguma insignificância deve ter a espécie feminina para permitir o erotismo". ABL

Já nem sei onde ir buscar inspiração para falar sobre Agustina! É que ultrapassa completamente o pensar normal, a meditação sobre as coisas. E, conclusão deliciosa, o erotismo é um acto masculino em direcção à mulher. Depois de escrever isto já só espero que toda aquela turba imensa de gente que nivela tudo da mesma maneira, esquecendo-se de pensar, integrar, meditar e outros actos da mente, dizer que esta conclusão é profundamente homofóbica. Terror de gente!

Venha de lá mais Agustina!

Mais um pouco de ABL

"Mais vale ter falsos amigos que inimigos verdadeiros." Agustina Bessa-Luís

Acho que é apenas uma questão de grau. O falso amigo é um potencial verdadeiro inimigos em potência, mas, nessa fase, ainda terá algum afecto, pelo que não desce ao horror da inimizade.
Na nossa vida temos um pouco de tudo. Amigos, quase amigos, conhecidos, gente simpática, e depois os vários graus de pessoas com quem temos alguma dificuldade em estabelecer relações cordiais e normais com base no amor e no afecto. Pouco importa a razão, ou o motivo pelo qual as relações se deterioram ou colapsam, o certo é que a uma dada altura acontece uma ruptura e os caminhos divergem. Desse momento em diante é uma questão de animosidade e belicosidade de cada um e das circunstâncias destes.  

Mais um pouco

"Gosta de ser obedecido, quando muito que lhe toquem nos pés e nunca na barba." Agustina Bessa-Luís

A ironia. Seria pedir para tocar nos pés, ou beijar os pés? O famoso lambebotismo deste nosso rectângulo. Tocar na barba, ou seja, falar à mesma altura, jamais! Obviamente que se trata de um senhor e nunca de um rei. Um rei não gosta de ser obedecido, é, naturalmente, obedecido!

Ai, ai, ai.....

"Teve honrosos inimigos, o que já é caminho para um grande renome". Agustina Bessa-Luís

A ideia desta síntese, mais uma!, da nossa Agustina é fazer justiça, num mesmo momento aos dois lados de uma contenda sem com isso indicar qualquer preferência. Os nossos inimigos dão, também a dimensão da nossa projecção.

E agora lastimo-me profundamente! Não tenho inimigos de jeito! Uns tontos sem remédio. Pessoas sem moral que me incomodam para terem o gosto de me ver incomodado! Por aqui não vou descobrir grandeza na minha alma. Assim, ou deixo esta parte belicosa da minha alma de se assanhar ou escolho outros para arranhar, ou ainda deixo-me estar quietinho em desassossego apenas com a minha alma. Bem, neste último caso complico deveras o dito da Agustina! Se for eu o meu próprio inimigo, céus que batalha disparatada!

meditação

"É triste estarem os senhores toda a vida preocupados em ser senhores sem nunca pensarem em ser reis." Agustina Bessa-Luís.

A capacidade de síntese desta frase é extraordinária, pois que consegue transmitir com uma sageza incrível a  enorme grandeza que se pede a um Rei, que, tal como um padre, deixa para trás, na sua existência, um pedaço da sua pessoa para cumprir um determinado fim. Ao invés, os outros senhores tendem a agarrar o que temporariamente lhes ocuparia o tempo para fazer disso um acrescento à sua pessoa com todos os benefícios que daí possam advir, senão mesmo fazer com que advenham!

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Ao frio que se avizinha

Já fui buscar umas mantas para colocar sobre as minhas pernas. Dois pares de meias e mais uma camisola.

Pode até nevar na segunda feira! Como diria o outro "Não havia necessidade..." tanto mais que vou ter que trabalhar na terça feira.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Meditações

"O que foi feito, feito está. Não é por pedir perdão que se é mais perdoado" - Agustina Bessa-Luís.

Não sei se a frase é da autora em causa, ou se apenas a utiliza, no entanto a força da frase é suficiente para permitir vários graus de reflexão

1. Sobre perdoar
2. Sobre o pedido de perdão
3. Sobre o remorso

O perdão, a capacidade de perdoar, deveria ser como que uma esponja que apaga o mal de que fomos sujeitos. Nem a esponja tudo apaga, nem o mal se extingue no acto. E desse modo a frase tem a força que tem, não pelo facto de se querer por vontade própria ou alheia que o acto desaparece da alma sujeita ao mal ou erro.
Pedir perdão. Coisa que já teve uma carga fatalista, derradeira e terrível, fruto de um legado da Igreja católica de outros tempos, teve com o Papa João Paulo II e o seu pedido de perdão em nome da Igreja, todo um novo significado que se traduz tão simplesmente na humanização do perdão. O acto de perdoar deixa de pertencer a Deus, mas reside na alma do homem e na sua potencialidade de aprender com o erro, evitar o erro, corrigir o erro e ser diferente. A questão do amor volta de novo à baila, pois que todo o magnífico apostolado de João Paulo II abre essa porta que empurra o homem para o amor como motor da acção e não já as regras e o hábito.
Remorso. O lastro da nossa vida, a aprendizagem, o crescimento da alma e a ambição de se ser melhor faz com que o remorso seja uma o reflexo da reflexão de cada homem. Também aqui deveria receber a mesma graça e atenção do Amor, pois que o remorso é por amor de quem mal agimos. E nessa perspectiva pode ele também ser fonte de criação no homem.
 

Deduções inquietantes

A ler Agustina Bessa-Luís "Fama e segredo na História de Portugal", para além do gosto imenso que é ler esta autora, eis que me surge uma confirmação inquietante. A Casa Real de Portugal tem a sua origem em alguém que não é Português.

Dom Afonso Henriques é, sem a menor dúvida, quem abre o livro de armas desta família. Porém a sua ascendência, bem como o meio que o enquadra não é português, nem porventura a língua falada seria o português, pois que seu Pai, o Conde Dom Henrique é borgonhês, ou seja da Borgonha, em França. A sua mãe Dona Teresa, filha ilegítima da casa Real de Castela. É assim evidente que com um pai francês e uma mãe castelhana o nosso fundador, que cria o reino de Portugal e a sua Casa Real, tem origem fora do que virá a ser o nosso país. É certo, todavia, que ele nasce neste nosso rectângulo e terá sido educado por grande influência das gentes deste espaço, mas esta circunstância não é mais que isso, uma circunstância.
Mas este facto permite, ao mesmo tempo, dotar a princípio com o seu toque espiritual, pois que se tivesse sido escolhido um entre os demais, não haveria o legado divino do poder que surge na pessoa de Dom Afonso Henriques pelo facto de seus avós serem ambos Reis.  Borgonha pela paterna e Castela pela materna. Esta tese tem como princípio que o poder pertence a Deus e só este tem a capacidade de legar, ou dotar alguns, os seus eleitos, para o exercerem com a sua liberdade, também fruto de uma habilidade vinda da mão do Criador. ( podia seguir o caminho da crítica do erro grosseiro da democracia, ao supor-se substituta da origem do poder, mas isso não é assunto para o momento.)


  

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Penumbra

E na penumbra te vi
Juntavas o dia e a noite
Num cinzento sem luz
Onde tropeçavas nas sombras
Que a tua alma acarregava

E nas mãos sentiste
Um calor húmido
De quando bate o coração
Nas horas de ansiedade
E depois veio o tempo
Que se enrola nas palavras
Quando tudo o que pedia
Era, simplesmente serenidade

Haja luz! Muita!

"O que melhor fixamos não é o que aprendemos, mas o que amamos" -  Agustina Bessa-Luís.
Há, no entanto quem defenda que é a violência que mais marca o homem, no entanto, na minha qualidade de romântico prefiro a primeira sobre a segunda.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Esquinas da vida

A ideia que a vida tem esquinas é particularmente curiosa. Poderia acrescentar que são voltas que a vida dá, isto no fundo para poder ir dar com a esquina, mas não é nesse sentido que vale a ideia. A ideia da esquina é mais a de momentos inesperados em que pode acontecer algo imprevisível.

Uma das características do amadurecimento do ser humano e da sua passagem para a fase adulta é precisamente a capacidade de prever o futuro e passar a estruturar a sua atitude e orientação de acordo com a previsão que vai fazendo. Desde o assumir compromissos, como um emprego, uma tarefa, uma responsabilidade ou um projecto que seja e coordenar o seu tempo, a sua disponibilidade e as suas opções de acordo com esse compromisso. Faz e/ou deixa de fazer coisas, rectifica pensamentos, apura ideias, confirma valores morais, etc.
Assim e de acordo com a perspectiva dos seus propósitos vai orientando um caminho onde desenvolve uma acção ( para me armar ao finório diria uma práxis) e, claro, podemos ser tudo dentro da persecução dos nossos objectivos. Podemos agir bem, enquadrados ou mal. Faremos o lastro que deixamos. Aliás, já toda a fase de adolescência foi o primeiro lastro que fomos deixando, um rasto que vai tendo significados progressivos à medida que o tempo passa.
Ciente, então deste nosso percurso, surge então a ideia de esquina da vida, ou seja, o encontro inesperado de algo, alguém ou alguma coisa que ficou no caminho, ou até, que foi caminho.

Vale esta reflexão velha para mostrar o quanto o rancor, o desamor, a agressividade, a má-criação, a intolerância, a sobranceria e até a falta de humildade podem, mesmo que actos nossos, nossos futuros inimigos.

Num determinado momento temos de algum modo poder ou autoridade sobre um terceiro. Agimos de modo pouco recomendável. A relação desfaz-se por razões irrelevantes. Mais tarde, meses, anos ou até décadas, numa outra condição, numa outra circunstância, surge a esquina da vida em que nos coloca novamente frente a frente, mas em posições opostas.

Pois é. São as voltas que a vida dá.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Genes

Quando se chega à idade que tenho, temos a possibilidade de conhecer a nossa circunstância, bem como o nosso modo de ser de tal modo que podemos desenvolver a possibilidade de identificar as características que mais marcam a nossa idiossincrasia. Se somos persistentes, criativos, bondosos, torcidos, impertinentes, de ideias fixas,  etc, etc, etc. Sabemos também como é que algumas dessas características nos ajudam na vida e, como é que outras nos tramam e liquidam! Podemos, com o tempo tentar lutar, promover alertas ou até descobrir estratégias para combater esses pecados! Em conclusão, são coisas que dão cabo de nós.

Quando era mais novo não tinha a consciência quer da extensão do vícios de personalidade quer das suas consequências e, por consequência, resultava tendencialmente numa análise conclusiva dos factos um pouco distorcida. O olho que via e a alma que entendia era ainda coxa de conteúdos.

Hoje ao escutar a minha descendência, alminhas que carregam sem saberem, sem terem pedido e sem perceberem estes mesmos genes fico danado com a minha habilidade de procriador! Caramba, podia uma estrelinha ter corrigido estas coisinhas que podem estragar a vida deles! E, ainda mais dramático, podem passar aos filhos e depois estes aos filhos deles e assim sucessivamente transformando estes meus vícios em características familiares! O que seria uma coisa detestável! Do mesmo modo que posso fazer este raciocínio descendente também pode ser válido se o fizer de modo ascendente, mas, caramba, já não tenho idade para isso! Os vícios de personalidade no estado adulto deixam de ser herança genética e passam a erros a corrigir para sermos homens e mulheres melhores! É injusto, mas é essa a diferença entre o homem e  o animal, entre ser pensante e ser apenas impulso.

Mas é maravilhoso ver a beleza da criação que se evidencia até nestes vícios.

Reflexões de domingo

Dizia na sua homilia deste domingo o Padre Feytor Pinto uma afirmação que me deixou sob alerta para reflexão. O tema em causa era o caminho para o Amor. Não, obviamente numa dinâmica concupiscente, mas, naturalmente ao verdadeiro Amor, o Amor último, ou seja Deus.
Com a clareza de afirmação e raciocínio que lhe é característica, apresenta quatro passos da caminhada.
Primeiro passo que me deixa maravilhado - Justiça.
Dar aos outros aquilo que eles precisam, sendo que o que recebe tem que perceber que no que recebe está implícito um dever.

A ideia, portanto da caridade, do dar pelo dar, cai por completo. Não dar o que temos a mais, é dar o que o outro precisa, ou seja é num caminho para o outro. E ao receber o que nos é dado é sentir, reconhecer, entender e interiorizar que houve esse caminho na oferta, pelo que há que se ser grato. Não estou a falar de dar objectos, coisas. Estou no básico, no afecto.

MÃE, Mãe e mãe

Ao ler Livro de José Luis Peixoto, leio a seguinte frase: "O Ilídio sabia que a mãe podia estar a falar de tudo: nunca esqueças tudo". A presença da mãe como educadora, protectora e sobretudo cuidadora do filho.

A par desta consideração, veio à minha mente uma sugestão que me foi feita pela minha mulher que passo a explicar em minhas palavras a ideia dela:
"- Nos livros da cinderela e da branca de neve quem é que tu achas que é a madrasta?
- A segunda mulher do pai...
- Achas mesmo?
- Nunca pensei nisso, mas não vejo outra ideia...
- Sim, mas, e como as histórias são quase todas com vários sentidos, nunca te ocorreu que a madrasta pudesse ser outra coisa?
- Como assim?
- A mãe!
- Ahn?????
- Sim a mãe que fica ciumenta da beleza e da juventude que a filha no auge da sua adolescência se mostra"

Bom, e para parecer menos cruel, digamos que a mãe se casa com 16 anos e que com 30 a 32 tem em casa uma filha com uma pele linda, bonita, cheia das formas firmes e perfeitas dos 16 anos. Pode aceitar, amar e glorificar essa beleza gerada assim como pode também criar uma luta absolutamente desigual pela beleza que se quer sua para sempre. Donde a figura do espelho, o reflexo do eu, que pergunta quem é mais bela que eu? E nessa beleza, está também implícita a pergunta da bondade. Quem é melhor pessoa que eu? E o espelho confirma os maus instintos dessa não madrasta como aparece nos livros, mas mãe.

Tudo isto, no fundo, porque o sentido da palavra mãe é construído pela mulher que gera o seu filho ou filha e é nessa sua entrega de afecto, amor, atenção e que "não esqueças tudo" que dará sentido e conteúdo à palavra.

E então?

Sim, e então o que aconteceu ao jovem casal que se melava numa esplanada junto ao mar? Não se pode abrir um texto com tamanha sugestão e depois fechar as portas e ir para casa. É certo que o tempo arrefece e o sol se põe, mas no entretanto o clima estava preparado para as confissões de amor do jovem casal apaixonado.
Jovem casal???? Ora porquê jovem? Porque não um casal de octogenários com umas mantas sobre os joelhos? Ou então um casal adúltero de meia idade em que cada um fugiu às obrigações do seu lar, e foram à fonte daquilo que crêem nesse momento ser a fonte do verdadeiro amor? Vamos esquecer os dilemas de uma sociedade em vias de se desagregar, e prossigamos o fio de uma normalidade banal comunmemente aceite no seu natural virtuosismo do amor da idade ideal, quando o ninho é a mais natural das ambições.
E deste modo já podemos voltar à narrativa do amor declarado à beira mar, pois que melhor que num por do sol à beira mar só duas outras opções, em frente a uma lareira, apenas iluminado por dois castiçais cujas velas queimam uma cera que se vai desfazendo em mil gotas sobre uma base como o mesmo amor que se canta e derrama nesse ambiente. A terceira opção é um luar magnífico que nasce sobre uma praia de um mar tranquilo, envolvido num murmúrio das ondas a desdobrarem-se na praia. Dada a possibilidade da areia da praia ser muito fria de noite, passemos esta bela imagem para a esplanada de um bar da praia com um magnífico sofá em forma de puff em que juntos se deixam escorregar no seu centro. Neste último caso uma pequena manta de lã poderá cobrir os corpos que, nesse ambiente, anseiam, novamente se conhecer e reconhecer.
Antes que a conversa descambe, voltemos então à esplanada, ainda que a ideia da lareira...
Na esplanada, portanto, entre mil juras entre outros tantos encontros de lábios, a certificação das vontades comuns vai-se fortalecendo naquilo que parece ser o essencial da vida. No fundo o essencial de um projecto a dois, o que é que te faz ser e querer o que és, bem como o que desejas para a vida. Diz-me de ti que te direi de mim, e nesse encontro de intenções, vai acontecendo e crescendo um nós que se ambiciona. E esta é a magia do namoro. A descoberta da imensa possibilidade de construir um mundo cheio das novas certezas que se certificam com a mesma força que se confirmam todas as outras que já eram adquiridas.

Bah... sou um romântico!

domingo, 3 de fevereiro de 2013


E o sol já se foi embora

Era uma vez

A mania que as histórias todas começam, ou começavam com era uma vez, faz-me sentir sempre particularmente incómodo quando me preparo para descrever qualquer coisa e, de um modo quase inconsciente surge essa terrível frase.

Numa tarde de inverno José e Maria ( porque são os nomes mais comuns em português) ( e primeiro José, ou cavalheirescamente primeiro Maria? Primeiro José, pois foi ele que a convidou para a acção) descem juntos a rampa de acesso à esplanada junto ao mar. Na cabeça de José a imagem do quadro de Malhoa, onde alegre e descontraidamente um casal se deixa levar pelo tempo num esplanada na Praia das Maçãs, senão mesmo nas Azenhas do Mar. Aquele momento em que não há tempo e que deixa que o sol se estenda vagarosamente dos céus até ao mar, manchando o céus de cores quentes que vão do amarelo a um vermelho arroxeado. O inverno não lhe dá nem esse tempo, nem essa preguiça. Mesmo com um dia sem nuvens e com um sol único, há sempre um frio que se sente e uma humidade que abraça durante qualquer imobilidade.
Com a calma de uma tarde de domingo, escolhem a mesa mais próxima do mar, cuja vista é absolutamente desimpedida, assim como a brisa. Um cheiro de algas, de mar e sobretudo de sal inunda o ambiente. A mesa estrategicamente colocada em losango perante o mar, permite que ambos não só o apreciem em conjunto como os reúne, aproxima e une nesse momento que só quem já viveu apaixonadamente consegue sentir.
As mãos entrelaçam-se numa trança que vem desde o braço. Os ombros colam-se e as cabeças encostam-se uma à outra. De suas bocas não saem palavras, apenas sussurros que se diriam de abelhas junto à colmeia. ( Há que dar uma absoluta liberdade criativa ao autor que se desfaz nestes momentos de amor idílico! Mas para isso é preciso já ter amado, pelo menos uma vez. Obviamente que a persistência desse sentimento compreenderá muito melhor a imagem.)

Aproveitando o dia

Carcavelos

A magnífica vantagem de se viver em Portugal, país que a dois passos de casa se têm praias fantásticas, onde, até no Inverno, se pode estar a apreciar o dia

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Inverno?

Junto ao tejo neste azul que banha a minha cidade e reflecte o luz do sol. Corre um vento fresco que está conforme ao tempo de Inverno.
No passeio junto ao mar, pessoas de todos os géneros, idades e modos passeiam neste entardecer de Fevereiro.
Aqui, na esplanada, os pares trocam conversas, contam-se histórias e saberá Deus o que mais.
Eu bisbilhoto com um mini PC com a net "emprestada" do Café-inn.
Uma natural tarde de sábado, portanto.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Efemérides de pesar


Faz hoje 105 anos que o braço armado da maçonaria assassinou o Chefe de Estado de Portugal, Sua Alteza Real Dom Carlos, Rei de Portugal. O poder das armas de quem não é capaz de utilizar o poder das palavras.