segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Coisas de almas

"Nós morremos de ver morrer o sol." Teixeira de Pascoaes in Dom Carlos

Ainda ontem vinha de Colares a caminho de Cascais e via esse imenso Sol de inverno que morria no mar da minha alma incendiando-a num cego amarelo. E da ausência de coisa a ver, nascia um imenso branco, central, todo, imenso...

Mais tarde, na mesma estrada, e sobre o mesmo Sol que descia ao mar, dois namorados espremiam-se num só.
Também eles morriam de amor...  

sábado, 28 de dezembro de 2013

Olhando para a "arte"

Ao ver uma exposição de arte do século XX, reflicto um pouco e fico quase com duas certezas.

1ª A fotografia deu cabo da capacidade de de certas pessoas com habilidades para a reprodução pictórica de se exprimirem. Tê-las-á reduzido a uma insignificância que não é compatível com a ideia que têm de si próprios.

2ª A esquerda, na sua demanda de qualquer coisa substante que consiga ultrapassar a espiritualidade do homem foi de demanda em demanda até à anulação total da própria capacidade do homem se exprimir, chegando a dizer que a arte já existia na coisa antes do homem a realizar. (Antes o absinto de Pessoa!)

Com tanta vontade de serem deuses, certos homens acabam por ser menos que homens.

Em demanda

Numa exposição noto, sem surpresa, que vários quadros tem como título "Sem título". Bom, sendo o título uma forma de dar nome ao quadro, o que se faz quando este não tem nome? É inominável. E algo que não tem nome, terá exactamente o quê?

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Da volta do tempo

E volta a roda
Fim que recomeça,
Que não acaba nunca,
Tempo que se ultrapassa.
E a cada ano que conta,
Como contas de um rosário,
Que se rezam
Como se pede por alguém.
Um futuro que seja,
Até por isso mesmo,
Um futuro.
E volta a roda,
A do tempo,
E a do futuro.
Assim diz o Sol,

E demais sente a alma
Sem saber porquê,
Mas sentido o tempo
Que volta à roda.

D'inverno

E estou-me assim
Como a última folha
Ainda preso ao galho
E já sem cor.

De amarela a castanha,
E agora parda, seca.
Sem veios ou côr.
Apenas pendurado

Tal como nesta alma desolada
Feita galho quasi seco
Saudosa de todos os passados
E neles ainda preso.


Os materiais

Gosto de experimentar os materiais. E mudo quando me habituo ou quando já estou saturado do efeito gráfico.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

No mundo da Genealogia

Andava eu a tratar de uns antepassados naturais do Monte da Caparica, do lugar da Trafaria, e chego ao livro de casamentos de 1599 a 1632 e noto uma invulgar quantidade de Sebastiãos que se casam. Se casam nesta data é normal que tenham nascidos depois de 1580, ou seja, depois da morte de Dom Sebastião. Significa, portanto, que a população, de alguma maneira transferiu o seu pesar da ausência do seu Rei, dando esse nome aos seus filhos.

É extraordinária esta alma lusa!

Deduções

A realidade não é complexa. Ela contém tal infinidade de detalhes que o seu entendimento é que é complexo.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Desenhando


Caneta com aguarela sobre papel


Caneta com aguarela sobre papel


Lápis sobre papel

 Lápis sobre papel

Lápis sobre papel

Inverno

O inverno é tempo de hibernação criativa.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

lateral à dúvida

Aquele que ambiciona produzir arte, que se apelida de artista, que produz coisas a que chama obras de arte, não estará, antes de qualquer outra coisa, a pedir ao mundo que alguém lhe confirme a eternidade que o seu corpo nega?
Do que faço, pinto, escrevo, penso e sei lá que formas, reconheço-me como alguém que "brinca" com os instrumentos que o Criador me deu. Sei, certo e seguro, que não é arte. E vivo tão mais tranquilo por isso!

domingo, 1 de dezembro de 2013

Questões emergentes

A falta de escrúpulos. E não se pense que falo na classe política. Não, essa irremediavelmente é o caixote de lixo de qualquer código de valores. Falo mais genericamente, como pro exemplo:

Na arte. Promove-se lixo em quantidades assustadoras. A todas um conjunto de amigos promove na expectativa de ser, também promovido. Veja o caso supremo da Joana de Vasconcelos.
Na literatura. Como é que lixo pode vender centenas de milhares de livros? José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares, Isabel Stilweel, etc, etc, etc....
No cinema. Os filmes que se sucedem em lixo I, depois II, e III e sei lá que número se segue.
Nas televisões. Casas dos horrores, segredos, mau gosto e imbecilidade. Novelas de todo o género e feitio.
Nos jornais. Os jornalistas já não descrevem o que aconteceu, mas acham-se todos detentores de algum conhecimento estratégico que os faz iluminados sobre quem lê, e, mais inacreditável, quem investe nos meios!
Na publicidade. Níveis demasiado desinteligentes de mentir.
No comércio. São feitas campanhas apelando a valores, sendo o seu verdadeiro fito é vender mais que o parceiro, e estão-se completamente nas tintas para o cliente, sendo neste caso o Pingo Doce o verdadeiro campeão do abuso moral.
Na justiça. Os agentes estão completamente nas tintas. Há estatísticas que têm que ser cumpridas. Calhou levar a julgamento um caso aberrante, pouco importa o que isso custa. O que importa são as estatísticas!
Na educação. O aluno deixou de ser a razão de ser dos professores. Passou tudo para toda uma classe que brame os seus direitos, nomeadamente de horário zero, cuja conquista o tempo certificou!
Na polícia. A ideia de defesa da pátria virou salazarismo bafiento. O que importa são as minhas necessidades.

Regra geral vivemos num clima de absoluta impunidade moral. Cada homem age como lhe apetece, finca-se no seu objectivo e devassa o que se opuser à sua intenção. Não havendo moral, o escrúpulo desaparece. Não tem por onde medrar.

Daqui à anarquia é um instante. Na anarquia desenvolvem-se as atrocidades.

E hoje, 1º de Dezembro, dia de uma Nacionalidade, da recuperação da identidade, uns pequenos homens sem escrúpulos, porque absolutamente amorais, decretaram não ser feriado para que o país produza mais riqueza. Para que serve a riqueza de um país quando não há País?

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Nostalgia

Somos uma geração nostálgica.
Uma geração que tem saudades de um tempo que já passou e não volta. Mas passou esse tempo, mas o que jamais passará é, não só o que nele vivemos, como a intensidade com que o vivemos.

Sentimos uma calorosa saudade que projectamos não só nas música que voltamos sempre a ouvir, mas fazendo fugas ao tempo e revivitando a nossa memória para lá reencontrar o nosso tempo de sermos Adão e Eva num imenso paraíso.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Aforismos

"Não há futuro sem integração do passado e aquele que escolhe o passado fica, naturalmente, sem futuro."

Não sei se alguém deduziu isto antes de mim ou se é uma máxima de outro. Para mim tem todo o sentido e é quanto me baste neste ponto. Já basta os nossos "in"voluntários apagamentos da memória para, em momentos chave, entender que estamos a cair em erros grosseiros. E coloco o "in" entre aspas, pois que há vários tipos de ser involuntário, a saber, uns que dependem do nosso esforço para assim acontecer, e outros, mais dramáticos pelo duplo sentido que pode ter que é o efectivo apagamento da nossa memória activa. Escolher o passado é viver uma mentira. E viver essa mentira é, em absoluto, ter um objectivo para o que fazemos e agir de modo falso perante o mundo, pois que perseguimos esse objectivo e não a vida.

Conviver, então, com este tipo de devassa moral é um tormento insão. 

Ainda voltarei a este tema, pois que é um tema que me rasga a alma.

Nostalgias

Ao despique numa luta de todo o tempo a ouvir balada atrás de balada, música atrás de música que é difícil parar.

Não há tempo para parar, nem para ficar cansado...

Ai no que me calha a mente

Ao sair do autocarro recolhe da caixinha de acrílico um aviso. É bom manter-se informado e, num transporte colectivo como aquele, seguramente que a informação lhe interessaria. Transporte de massas, informação de massas.
Salta para o passeio e dispõe-se a ler o aviso. Uma exposição. Pela foto que ilustra o convite ou informação é, pela certa, uma daquelas novas exposições em que a descodificação dos objectos expostos se deduz e abre caminho a percursos diversos. Assim sendo, começa entrar no espírito da imagem e inicía a sua crítica.

"A autor utiliza os padrões cromáticos de modo integrante da paisagens imagética de um real que transporta do seu universo criacional para o suporte fisico".

Volta ao impresso e lê: "Atlier infantil de conto."
Desolado, sente o fim da sua promissora carreira de crítico de arte.  

Encantado

Era tão jovem, tão jovem que ainda contava o tempo pelos meses na expectativa de poder vir a atingir as duas centenas.Não só tinha toda uma vida pela frente para usar e abusar, como o corpo todo para a experimentar. Desde os gestos, ao andar, o rir e brincar, era tudo o que era de esperar para essa idade.
E num dedo da mão brincava ela com um anel prateado. E digo anel, pelo modo envolvente a carinhoso como o fazia rodar no dedo, pois que poderia ser confundido com uma vulgar anilha de um motor ou electrodoméstico.
O gosto com que o exibia lembrou-me fazer a pergunta da razão de ser do aro prateado.
- É o anel de comprometida! - diz com a grandeza de que afirma que todo o mundo lhe pertence.

É tão bom o Amor!

Ditados que desconhecia

Hoje ouvi o ditado que passo a transcrever:

"Não faças mal ao teu vizinho que o teu já vem a caminho."

Há lá coisa mais brilhante que este aviso à soberba, à prepotência, à altivez, à arrogância, enfim a tantos outros maus hábitos, maus modos e afins que um sem número de vezes nos invade a vontade do que o aviso que o mundo é composto de equilibrio e o que se dá é o que torna.

Há que rico povo cuja milenar sabedoria me encanta!

Caprichos

Conheço um cão. É um cão com caprichos. Um deles é o capricho de andar de rabo alçado, levandado mesmo, cheirando todos os rabos com que se cruza. Com alguns chega a sair em passeio.

Paradoxos

Há gente que passa uma vida produzindo peças, juntado coisas, fazendo um património, um legado. E no seu juízo são obras suas. Património. Valor. Até pode achar-se arte.

Os descendentes olham. Sacodem os ombros e encaixotam.
Os descendentes destes não abrem os caixotes.
Os que vêm depois limpam os sotãos.

Somos pó e ao pó voltamos.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Do amor

De mim me exilo,
E confirmada a sentença,
Sem recurso nem desagravo,
Fui-me de mim.

Levo o meu passado,
O tempo e o caminho.
Deixo a paz,
A vontade e a execução

Volto a projecto,
Sempre em embrião
Do que nunca falece
E vive eternamente.

De tudo o que pode ser
Do que é e do que foi.
O que dá sentido
E que é sempre

O Amor.

sendo-me

Já não sou eu
Nem sou nada.
Nem o que digo,
Nem o que escrevo.

É a vontade a cumprir-se
Ser o princípio e o fim,
Ser o ser
Sendo-me nele.

O ser que se afirma

O verbo fica no caminho,
São vontades para cumprir.
Vêem de uma alma por estrear,
Em todo um mar por navegar.

É um eterno presente
Que prepassa todo o tempo.
Sementes que ficam da criação,
Que se cumprem neste tempo.

E não se cumpre neste agora
Nem noutra promissora miragem.
Apenas um todo que se confirma
Tudo num momento que é sempre.

domingo, 24 de novembro de 2013

Do poder



Este pequeno filme, feito com a mestria absoluta de Herman José, traça de modo absolutamente hilariante o desejo dentro de cada pessoa de se sobrepor ao outro/outros pelo simples nada de se estar a ocupar uma função que visa uma parte da sociedade civil.

O indivíduo deixa de se ser fulano e passa a ser o presidente da junta. A diferença é tão mais crucial como a riqueza da nossa língua assim o determina, pois que a rigor ninguém É o presidente da junta, mas ESTÁ presidente da junta.

E estar presidente da junta é servir no que ela precisa. A noção de servir, de se ser serviço, que só é possível quando se tem um apelo para o outro, para a caridade, a noção de dar sem esperar nada em troca, é o ponto cada vez mais essencial do viver do homem.

Sigo, obviamente, a mensagem e sentir do Papa Francisco, que afirma que temos que ser para os outros.

Teatro e a criação

A falar sobre teatro e de como uma peça pode morrer pelo simples facto de ter passado tempo, e por tal tornam-se inverosímeis ou impossíveis. Passa-se que essas peças descrevem um tempo. E apenas nesse tempo o drama da peça faz sentido e que fora dele atinge patamares de irrealidade, pois que o mundo já não se coaduna com o passado, nem sequer o absorveu. Morreu o tema. Deixou de ter sentido.

Estas reflexões vinham a propósito da a trilogia de Frederico Garcia Lorca "Yerma", "A casa de Bernarda Alba" e "Bobas de Sangue" e é um facto indesmentível que dificilmente o drama que em cada uma se coloca teria sentido nos dias de hoje, à excepção da última, em que o drama se repete, sendo que não pela carga dramática de Lorca, mas mais pela concupiscência das almas, mas isso é outro departamento.

Os dramas de Lorca nascem em momentos em que a mulher adquire uma carga fundamental, quase fundacional nos ambientes e não é pelo peito exuberante, pela beleza extraordinária, pelas ancas desenhadas ou pelas pernas delgadas, ou seja não é o corpo visível, evidente e expectável da mulher, mas é a mulher útero, uma mulher mítica que, de certo modo, é a reguladora da criação e, por tal obriga-se a agir de modo a certificar o sentido que esta deve ter. O homem, quando determina uma vontade expressa, deixa de existir.

Tenho uma memória longínqua e distante da existência de universos como o das peças, mas o conhecimento é, acima de tudo, cultural e não de experiência nos mesmo, e mesmo assim, ler estas peças foi sentir o frenesim, a electricidade que elas geram.

Resumindo. Ainda que o universo de enquadramento das peças do Lorca seja impossível, o seu drama situa-se noutro patamar. Também é verdade que cada vez menos mulheres são capazes de atingir esse patamar. A natureza das mulheres está a perder a sua pujança criadora pois que cada vez mais se aproximam do homem.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Cuidado

Não ouse!
Não pense
Não faça nada
Fique onde está.
Tira a mão,
Suspenda a intenção
Vá para dentro
E cale-se!

Está aqui a grande certeza
A suprema verdade
De toda a ilusão
Que te diz não!

Do ser humano

De obra da criação, ser pensante, motor de um mar de transformações da natureza que vieram a produzir um outro homem, com mais habilidade e capacidade para apreender e conhecer o que o rodeia. Esta coisa que é ser humano quantas vezes se prende em nadas?

O cego amor próprio, a ausência de capacidade críitca, de reflexão interior constrói cenários onde, não se revendo, desenvolve todas as justificações para o mundo, diabolizando-o.

Manifestamente tenho uma imensa dificuldade em lidar com esta gente.

Para que o mal vença, basta que o Bem nada faça. Corrói-me a alma ser testemunha dessas vitórias.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

pedinte

Estendia a mão para além do corpo. Ficava quase suspensa no ar. Tão longe daquela massa corporal que se erguia. A mão ficava no ar. Flutuando. Suspensa.
E pedia. Pedia sem saber o quê, nem já sequer porquê... O vício de estar de mão estendida, de viver de mão estendida.
E é uma mão que apenas pede o que jamais se alcança na sua alma.

Afecto.

Da tradição

Há quem venha vender-nos todo o tipo de ilusões, nomeadamente uma ideia que que a tradição era o era, sendo que num nuns casos vale por ainda o ser e noutros por já não ser o que era. Coisa confusa? Nem por isso, apenas o interesse do marketista em vender a sua ideia. Contudo, e para mim, a tradição era a Avenida de Roma ser populada por betinhos e isso, meus caros já não é o que era....

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Desanimo

Mais uma amiga, mais uma, com o cabelo a desfazer-se e a cair a rodos. Consequência do tratamento.

E olho para os seus olhos e percebo que por trás está uma imensa tristeza, um desamor maior. Como uma mão que se solta. O sorriso que fica na cara é sofrido, marcado, triste.

Não questiono a mão de Deus, nem as suas determinações. Agradeço que não seja a familiares próximos. Mas sempre que olho aqueles olhos fico com vontade de dar um imenso abraço e de algum modo dizer-lhes que as amo e que aconteça o que acontecer elas são sempre belas, lindas, charmosas, flores, perfume e brilho. São mulheres sempre.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Dos meus amores

Um fogo uma vez aceso
Arde sempre.
E mesmo sem lenha
Arde da sua memória.

Da chama, luz e calor.
Do reflexo, vermelho, na pele.
No brilho que dá nos olhos
E no sangue que pulsa.

De quanto bate
Descompasado e veloz
Suspenso nesse momento
Que se faz todo o tempo.

Arde num espelho
Que embacia o olhar,
Que dispensa palavras,
Que vive na alma.

Sempre e para sempre.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Lendo 038

"Queres-me a mim como quando queres comer uma pomba" - Garcia Lorca in Yerma.

Esta frase é magnífica quando lida no contexto da peça de Lorca. Ao gritar esta frase, no final da peça, Yerma reclama de seu marido a infertilidade do casal e culpando-o pois quando o casal se "encontra" ele quere-a como a uma pomba e não como a uma mulher dando-lhe o que ela deseja acima de tudo, um filho, ou seja a razão profunda da sua vida.

A ideia, também, é que a vida só tem sentido quando projectada em terceiros, em criação, em desenvolvimento, em crescimento. Quando se vive para se puxar o lustro ao ego, não se deixa nada, nem a imagem no espelho. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Lendo 037

"Ela e as cunhadas, sem abrir a boca, todo o dia a caiar as paredes, e esfregar o arame, a limpar as vidraças, a untar a soleira, pois quanto mais brilha a casa por fora, mas arde por dentro." Garcia Lorca in Yerma, 1934

O poder feminino para a arte da guerra interior, dos males do amor próprio. Até em silêncio se desenvolve um ambiente absolutamente explosivo. Num supor de suponhamos que a impressão significa uma intenção....
Daí a necessidade da monogamia. O homem tem que viver em tranquilidade.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Lendo 036

"Há pessoas que têm a ideia de que nós somos polícias... Quando digo nós, refiro-me àqueles de se sabe que valem alguma coisa - felizmente - como nós valemos. E como têm essa ideia, vá de nos massarem, de nos preocuparem com as suas questões, com as quais nada temos..." - Ramada Curto, in Consciência, 1939

Este excerto do primeiro acto desta peça é tão cruelmente verdadeiro! Evidencia o egoismo que se entranha em todos nós que nos faz fugir dos problemas e dramas alheios para "não sermos massados". No presente caso, o que vem massar o personagem é o acontecimento que vai despoletar a trama da peça. Há um drama, uma eventual injustiça e a intervenção de alguém para corrigir o erro.
Cada personagem desta peça é um tipo de atitude face à dificuldade de um conflito de interesses.

O mundo dos afectos

Num almoço de reunião de qualquer nostalgia de um tempo quase mítico acontece o reencontro inesperado com alguém que a vida tinha colocado em caminhos completamente diferentes. Poderia agora perder um tempo entediante a dar sentidos figurados aos caminhos desde fisicamente a psicologicamente ou moral e espiritual ou, eventualmente, social. Apenas importaria se pretendesse fixar com isso os personagens a estereótipos e criar uma moldura mais densa aos mesmos de modo a poder levar para um sem número de enquadramentos justificativos do presente com base no desenvolvimento de cada personagem. Mas vou ser mais leve.
Do reencontro renasce a amizade com as características do tempo em que esta era um dia a dia. Conversa rápida, entendimentos a meio da frase e recomposição rápida do essencial de cada um no outro. Tudo tinha sentido. O fio condutor era o mesmo e o presente não se distanciava tanto do passado. Acabava, aliás, de certo modo de o confirmar o potencial que cada um tinha e como o desenvolveu.
No entanto havia o buraco do tempo. E nesse buraco cabiam imensos pequenos pecados como outras tantas virtudes que mostravam, aqui e ali, aquilo que era mais notório de cada um. E o que importava, para além da satisfação dos momentos do presente era ir preenchendo os buracos que se encontravam em branco do tempo passado, as justificações, as histórias cómicas, os desencontros e, naturalmente, o que foi o sentir desse tempo e nesse tempo.
O relógio é uma máquina que não pára nem dá descanso ou uma paragem para fruir o presente.
Consciente que o passado é um tempo a que se volta apenas idealmente a vida segue mais generosa e com mais sentido. A integração desses passados reforçam o presente, dão mais sentido à nossa passagem no tempo e no mundo. Assim como somos alguém com sentido em outros, deixamos pelo caminhos outros sentidos que o são noutros.

É o mundo dos afectos, o que dá conteúdo à vida.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Lendo 035

"Ainda não conheceram a pele de outro ninguém" Vitorino Nemésio, in Mau tempo no canal

Como se conhece a pele de outro ninguém? Numa entrega sem olhar, sem afecto na mão nem sem sentir o coração a bater nas carótidas impedindo que o ar passe regularmente quando se respira...
Como se pagasse o percorrer a pele alheia, coisa sem demora.
Ou, afinal, nunca se conheceria essa pele pois que não se estava disponível para esses conhecimentos.
Ou, finalmente, a expectativa toda para íniciar o conhecimento bíblico?

"Os sonhos são a minha realidade"

Tradução grosseira do título de uma música que teve o seu tempo em 1980. Era a música de um filme francês que elevou para o estrelato uma rapariguinha de seu nome Sophie Marceau que chegou a entrar numa sequela do 007.

O que realmente importa nesta música é que apesar de ser um magnífico exemplar de um certo pirismo musical que cresceu comigo é, ao mesmo tempo uma parte essencial do "sonhar" de um tempo. Não que seja verdade que a minha realidade fossem, ou sejam sonhos, mas a parte curiosa é que ainda hoje o sem dessa música, tal como outras de igual calibre estético, prendem a minha imaginação que recua no tempo e sinto um prazer imenso de reviver esse modo de sentir. Tão local, tão temporizado.

nem sei o que dizer ou pensar

Ás voltas com o ser humano, esse desconhecido que m'habita. Se algo me faz sentido, porque é sentido e tem nexo, porque é que me fica lasso?

Estar condenado à minha história é um drama que só eu consigo avaliar. Cada um de vós, que perde o seu tempo por aqui, ature-se assim como eu me aturo. A água vai continuar a correr, mas, e ainda assim, incapaz de lavar a alma.

As voltas do tempo

Vejo imagens de artistas que têm sensivelmente a minha idade ou mesmo que já passaram a barreira dos 50. A imagem que guardo delas é da ingenuidade da minha adolescência, da candura e de uma beleza e sensualidade. O recato dessas artistas era algo que as compunha no mundo da arte cinematográfica.

As imagens delas, hoje, são um ataque à minha ideia delas. Exibem generosos decotes, longas rachas nas saias e deixam-se fotografar como fossem modelos teenagers.

Se eu fizesse metade... acho que se dava início a um filme de terror!

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Em suspenso

Sentado. Em frente a uma janela. Vidro duplo. Silêncio de fora para dentro e de dentro para fora. Apenas os olhos se movem. Nem uma aragem. As folhas tombam pelo seu peso gasto do verão.

Se abrir a janela entra uma corrente de ar que se deslocará muito devagar enchendo o espaço de ar novo.
Se continuar quieto, tudo permanece igual. Só os olhos mexem. Mas na mente não. Nesse lugar que fica em lado nenhum, pois que não penso no lado direito enm no esquerdo, nem em cima, nem em baixo. Algures atrás dos olhos... e não faz barulho. Mesmo que pense num grito, numa bomba ou num som alto não oiço nada. Nem se pensar em chuva me molho.

E um longo suspiro denuncia o tédio que estas observações me pesam na vida. Encolho os, levanto-me como se fosse uma folha do outono, porque é assim a vida. Movimento. Assim como a aragem que não sopra.

Neste momento estou certo que Deus se sentou para descançar um pouco. Só assim se entende o tédio que percorre o tempo.

Esperemos que me devolva o entusiasmo.   

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Algures

O corredor é longo, muito longo mesmo. Por mais luzes que se acendam nunca consigo deixar de pensar que o dito corredor além de longo é escuro. É, todo ele, uma penumbra que se tem que passar para se chegar de um lado ao outro.

Podia ser o princípio deum hitória, havia já uma aura misteriosa no corredor. Ao mesmo tempo com alguma carga tétrica. Os audases viam, por outro lado, que a história se iria desenvolver sobre um caminho, um percurso que se iria descobrir e nele acontecer uma luz. Outros, ainda mais audazes, logo diriam que a escuridão do corredor se deve ao sofrimento implícito da mudança.

O que ninguém sabia, e não podiam saber, pois ainda não disse, é que a casa de banho ficava na ponta do corredor!

Em frenesim

Surge-me, num repente, a ideia de desenhar uma mulher crucificada. Não com significado religioso ou outro.


Apenas a mulher e o seu corpo.
E, por mais que procure, não encontro a imagem que se desenhou na minha cabeça. Aparece sempre uma anca elevada, ou uma perna a traçar, ou o que quer que seja na demanda de um qualquer erotismo exibicionista.
O que procuro é corpo feminino retesado, com as suas formas tensas, suspenso, ferido e, sobretudo, pendurado. Ou seja no estado em que se encontraria se estivesse mesmo crucificado.

domingo, 3 de novembro de 2013

O som do silêncio

É como um fio agudo que se estardalhaça num eco.
E que cai, demoradamente, longamente e penosamente.
É o som que nada diz, nada sabe e só se houve. Pensa-se. Nele, por ele e porquê..
E depois é fugir! Como se fosse um fogo!
Acudam, acudam que me arde a alma!

Ahhhhh... barulho
Som, ruído!

Do mar

A meio caminho de uma estrada que liga o tempo, seguem juntos em direcção a um sul que se perde no calor que desaparece. Antes fosse um norte que oriente.
Por cima um sol quente aquece a alma que se tenta soltar do corpo e das suas insistências.
- Vamos tomar banho neste mar como fosse o sétimo mar do mundo, o que falta saborear.
Desconfiada, olha-o como que temendo a instalação do cenário apocalíptico da via.
- Vais sentir o último sal. E no teu corpo vais reter a totalidade dos mares e dos sonhos, dos sabores e das vontades.
No olho cresce um brilho. O do Sol que se reflecte na lágrima que se instala.
- Nenhum sal desses mares terá o sabor do sal das minhas lágrimas.
- Abre o corpo ao mar que se aproxima e verás que o sabor do mar vive no futuro.
E seca-se o olhar que fita agora a brancura da areia que reflecte toda a luz.
- Vem... - e despe-se em direcção às ondas serenas do mar
- O meu mar está morto... - e segue caminho para nenhures.

sábado, 2 de novembro de 2013

Trabalho

Sábado e desde há 5 horas agarrado ao computador a finalmente tratar de assuntos que andavam pendentes.

Só de pensar que as coisas ainda vão no início.....

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

enfim...

À beira de um por do sol,
Como quem se esgueira,
Não do sol nem da terra que cresce,
Mas do tempo que se esvai...
Escorre, insistentemente,
Foge para amanhã
Sempre mais à frente
Não pára sequer para conversar.
E o sol põe-se
Ali, ao fundo,
Longe,
Intocável.
O relógio bate as horas.
Perdidas.
Gastas.
Desperdiçadas
E a luz queixa-se...
Desaparece,
Apaga-se.

Tudo desce ao escuro
Tomara que agora passasse,
Esse tempo sem luz,
Ainda mais depressa
Quase veloz

Completar a volta,
Uma cambalhota

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Vive-se só

Vive-se só.
Nem com os outros,
Nem com ninguém.
Apenas só

Seja na dor,
Na angústia
Ou na emoção
Vive-se só.

De passagem
Ou em permanência
Cou ou sem consequência
Vive-se só.

E quando o tempo cessar,
Nessa passagem,
No limite do absoluto,
Vive-se só.

Momentaneamente só,
Eternamente só.
Ainda que às vezes
Vagamente distraído.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A minha dúvida renasceu

Desde 1985 ( caramba, há 28 anos!) que ando a tentar certificar uma carta de armas que foi passada ao meu quinto avô. As horas, senão mesmo dias que isto já me gastou, não tem paralelo.
Fez-me verificar todos os livros de Coimbra de 1650 a 1700. Em Leiria, os livro de baptismo de Alvorninha, concelho de Caldas da Rainha, pelo menos 4 vezes! A resposta era sempre a mesma. O nome "Cáceres", no primeiro e quarto quadrante do brasão não aprece em lado algum. A minha conclusão é que o nome teria sido forjado e como a carta é pedida e passada em 1782, ou seja 30 anos após o terramoto, os processos podiam ter um tratamento com alguma criatividade, pelo que podia ter havido a incorporação da vida/familia de terceiros de modo a obter o brasão, e por tal se tornar nobre. Desejo mais que legítimo.
Recentemente (ontem) tropeço nisto: 


Um assento de baptismo do irmão do meu quinto avô, o tal que tería "inventado" o apelido de Cáceres. Então não é que o pai se identifica na Igreja dos Anjos, e no dia 14 de Setembro de 1752, baptiza o filho Felisberto, nascido a 3 de Junho de 1752 na Calçada de Santo André (à Mouraria) com o nome Ricardo António Mourato de CÁCERES! Ou seja 3 anos antes do terramoto. Quem usa o nome é o pai e não o filho!

O que fica por esclarecer:
Porque é que não se moneou assim no casamento?

Nem no baptismo do meu quinto avô, nascido em 1750?


Nem da outra irmã, Ana, nascida em 1756?



Mistérios!

De um tempo

Uma saudade de ti...
Não de te ter aqui,
Nem a de te apertar,
Mas a do outro tempo
Em que te olhava,
E apenas te via a ti.
Hoje já somos tantos,
Quer em mim,
Como em ti...
Chega a ser difícil rever,
Ou até pensar
Que houve um tempo assim...

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Poema ao tédio

Há amanhãs que tardam...
São suspiros de uma intenção
Neste tempo em suspensão,
Pronto a agarrar uma sedução.

De uma vontade num futuro,
Sonho da minha ilusão
Que se expande no vazio
E vive assim em projecção.

Quando o tempo sobra,
E se faz demorado.
Tudo foge para amanhã,
Para um real idealizado.

Sobra um imenso tédio
De estar adiado
Num futuro provável
Que vive apenas desejado.

De um futuro ideal
Que de si se ultrapassa
Vive fora de qualquer tempo
À espera daquele que não passa.

Pela fresquinha

"O Bem é uma flor que se rega." Onde, no fundo da minha alma fui buscar esta frase é um mistério para mim, o certo é que saiu na altura certa.

A predisposição para o bem e para as coisas boas, promove, necessariamente, resultados e retornos com igual carga positiva. No fundo não é muito diferente da maior parte das frases e doutrinas da Igreja. "Vive para o Amor". "Ama o próximo". "Dá a outra face", etc, etc, A predisposição para o bem, para além de suavizar as agruras da nossa alma, de afastar as cargas negativas, promove em terceiros pensamentos mais positivos.

Vou continuar a tentar.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Da vida quotidiana

Falhei o meu autocarro habitual, logo tive que apanhar o seguinte. Um mar de caras desconhecidas. Até cheguei a pensar que me tinha enganado no autocarro. Irei para o mesmo sítio? Quem me dera que não!

Dúvida

Quando já desenhei quase tudo o que vejo na paragem do autocarro, pergunto-me:
- Vou repetir-me?

Nota: Assim como a natureza se vai mudando todos os dias, também o que nos rodeia, pelo que meu caro senhor, deixe de ser um calão piegas e vá desenhar o que bem entende! Mas faça.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Amar!

Amar!
O que é isso de amar?
Amar é um ideal!
Uma vontade pura,
Um paraíso,
E toda a eternidade
Concentrada num segundo.
Amar é inconsequente,
É não pensar,
Não reflectir,
Nem sequer meditar.
Amar é sonhar,
Querer ser e estar
Fundido e misturado.

E não há tempo para amar!
Nem sequer para esperar
É tudo aqui e agora,
Duma vez e outra vez
Repetindo o amanhã
Que se quer real
Como todos os sonhos
Quando se fecham os olhos.
Amar é sem tempo,
Sem espaço e sem ar.
É tudo.
E de uma só vez.
Eternamente!

Amar é ser amanhã.

Embrulhar em papel pardo

Há mais mundos que o meu! Mas o meu também existe!

Afinal o que é que queres?

Para que queres tu escrever, desenhar, pintar, fotografar, filmar ou o que mais te vier à cabeça? Gostas disso ou, no fundo ambicionas um pedaço de eternidade?

Dramas quase existenciais

Passei a datar e a assinar o que faço.
O livro é meu assim como o caderno onde escrevo. Também de quam mais poderia escrever isto? E logo com a minha letra!

O mexilhão começa a achar-se maior que a sua casca! E se assim é, só tem uma de duas soluções, ou rouba uma casca alheia, o que é feio, ou aprende a existir fora da casca. E será o mesmo; dentro e fora da casca?

Erros grosseiros

Enviam-me um email a pedir líderes do futuro.

Eu vivo o presente!

Mais uns tantos





Tanta coisa para se acabar num balde de lixo.

Mais uma tentativa


De volta aos desenhos. E, como sempre no autocarro. FInal de dia de ontem. Não dormia, mas descansava.

Mais um exercício

E no fundo da alma, no buraco mais quente, ond ereside toda a perversão assim como a ambição do desejo carnal tão absurdo como devastador, é aí que está o ânimo do santo!
No olhos o sangue sacode as pupilas num frenesim epilético, das mãos escorrem lágrimas de suor, as pernas tremem e o coração bate desenfreadamente algures num microfone, explodindo o som por todo o lado!
Desejo, maldito desejo!
E mais maldito ainda o botão que explodindo, escancarou o decote, expondo a perfeição da criação divina!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Desabafo

No outro dia pensava com os meus botões sobre os botões alheios e o entusiamo que porporciona ao homens imaginar que por uma força qualquer saltassem das suas casas e permitissem a contemplação da mais bela divina criação. E por que é que assim é?

O homem tem parte considerável do seu estímulo sexual na visão. Ver ou antecipar a visão é quanto baste para acender a centelha do desejo no homem. Ora a mulher, que eu saiba é claro, já não é tão estimulada pelo impulso visial ( também pudera!, um pirilau é feio que se farta!). Na mulher resulta mais a estimulação sensorial no corpo. Não obrigatoriamente nas partes erógenas, mas sentirem-se tocadas e, também desejadas. Tocar com os olhos também conta.

É, portanto de certo modo lógico que elas abram os seus decotes, nos ofereçam a visão do paraíso nos seus expressivos peitos, subam as saias para que contemplemos as pernas mais bem torneadas e que a roupa se ajuste de tal modo aos glúteos que conseguimos imaginar a cor e a forma da roupa interior. Por mais que os homens sejam todos uns estúpidos por se babarem perante essa montra de goluseimas, elas gostam de se sentir objecto de desejo.

Ou isto é verdade ou então não percebo já nada de nada. 

Anjo da guarda

Por onde andas, anjo meu,
Que a minha alma não guardas,
Nem da minha vontade cuidas,
Apenas o remorso retardas.

Refaz-te minha consciência,
Sê-me dentro e fora de mim.
Adormece este demónio que espreita
E que me atormenta de mim.

Conheces o outro que busco,
Aquele que nunca fugiu,
Antes eu, em demasia, dele,
Pois tudo turvo em mim emergiu.

Neste reflexo que me encontro
De me ser um e outro também,
Abre-se num mar de sangue
Onde o vencedor é ninguém.

É numa fúria gasta,
Que em si se espraia,
Deixa terra amarga e queimada,
Sem haver por onde se saia.

Um lastro, assim, de nada,
Sem futuro porque não é presente.
Fica vazio desta vontade de ser
A alma que verdadeiramente sente.

Vês anjo meu,
Minha guarda e companhia
Ando mal com a minha alma,
Seja de noite ou de dia.

Humor ou Amor?

- Viste a espuma do mar?
- Não..
- Mas ela viu-te!
- Porque é que dizes isso?
- Tens a sua luz no teu olhar...

No autocarro

Junto à porta de saída, leio o meu livro enquanto o resto do percurso se cumpre. Para minimizar as distrações coloco auricolares nos ouvidos e oiço música. A receita que se repete todos os dias. Sem novidades. Porém, a determinado momento uma música atípica, desordenada, repetitiva e desagradável começa a entrar nos meus ouvidos. Não se foi a fealdade da música, se o nível sonoro ou o que quer que seja, mas começa a incomodar a concentração no decorrer do texto denso de José-Augusto França. Destapo os ouvidos e tento perceber a origem do ruído. Parecía uma rádio suburbana a emitir. Estranhamente, não consigo, de todo detectar a origem do som. Repito segunda vez a mesma operação. E nada, sem conclusão. O meu livro, entretanto, já perdeu a linha condutora.
À terceira tentativa surge uma passageira frequente, com a qual trocamos vagos olhares e sorrisos de cumprimentos todos os dias, que me aponta para um jovem.
Olho para o dito jovem e evidencia todas as características de um jovem suburbano. Calças rebaixadas a mostrar as cuecas, de chapéu dentro do autocarro, brinco no ouvido e um postura desafiante, como que a exibir que o mundo, e o autocarro é um lugar de conflito e tem que exibir a sua preparação para competir.
Não resisto e pergunto:
- Este som é do cavalheiro?
Olha-me e responde estas palavras:
- É! Se eu tivesse uns fones como o chefe, não se ouvia.
Completamnete atónito com a resposta, replico:
- Como?
- Se tivesse uns fones como chefe, não se ouvia.
Paro dois segundo, completamente estupefacto com esta resposta e pergunto-lhe:
- Chefe de quê?
- ... da sua vida... - e começa vagamente a corar.
Recoloco os meus auricolares no ouvido e vou tentar, com muita dificuldade, voltar a encontrar a minha concentração para continuar a ler "A Guerra e a Paz".

A escola da vida é feita pela integração de modelos. Antigamente eram os pais, os avós, etc. Hoje é uma tão grande salganhada de esterótipos que as pessoas dificilmente conseguem ter uma linha coerente na sua conduta.
Vão ser, definitivamente, tempos difíceis.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Do traço

Acompanhar o evoluir de um traço numa folha de papel e perceber que nas oscilações que o traço vai demonstrando surge a intenção de uma forma.

O espanto que isto me causa, a capacidade de se fazer forma, é tão enorme que não consigo parar de o fazer. Seja em desenho, na escrita ou em tantas outras coisas. A intenção da mão.

Do desenho

Num desenho aprecio que se note uma certa imperfeição no traço. Essa imperfeição resulta do estilo do autor e não de falta de habilidade. É como que a assinatura da alma.

As minhas imperfeições são muito mais inabilidade que assinaturas da alma que m'habita. Ambiciono o oposto pelo que vou continuando.

domingo, 13 de outubro de 2013

Em estado de humildade absoluta

Não sou artista!

No que alimenta a minha alma, o meu sentir, a minha capacidade de contemplação e até de entendimento, deve haver uma falha genética. A falha que sinto, aquela que consegue identificar "o nada que é tudo" que me poderia fazer elevar a minha alma a certos estados anímicos. E em lugares prestigiados como o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian apresentam o que se segue como "arte"...
 

 

 

 


Assumo.
Não sou artista!
Sou um iletrado no mundo da arte!
Sou uma nulidade na estética!
Sou, definitivamente, vazio de conteúdos.

Ou isso tudo, ou existe um mar de gente a fazer meio mundo de parvos.
Eu desisto!

Ir à procura da alma

"Grosso modo, podemos dizer que existem dois tipos de cineastas: os narradores e os poetas." Claude Chabrol in Como fazer um filme.

A ideia desta frase resume-se no seguinte. Um filme ou é uma história que se conta, ou tem uma alma ( a que Chabrol chama Visão de mundo) e eu simplifico ( ou amplifico) em alma. Contar contando-se.
"O poeta não cria senão para traduzir a sua visão, (...)"

Ousaria dizer que este é o mal que percorre quase todas as formas de arte ( assumindo que o cinema pode ser considerado uma forma de arte), temos tantas vezes meros artesão, técnicos, comunicadores, descritores, contadores de histórias, mas almas que se iluminam perante o que nos deixam contemplar é apenas um universo reduzido. Em suma :"Os bons técnicos, os grandes técnicos de cinema existem em número muito reduzido e não são aqueles que julgamos como tal."

sábado, 12 de outubro de 2013

Tatuagens

Não gosto.
Eventualmente um apontamento em determinadas partes do corpo a promover uma imagem. Mas sempre a chamada "one day tattoo" que em dias desaparece.

O Criador desenhou este corpo e deu-lhe uma pele para o proteger. A pele é, também ela, uma parte da nossa imagem, um modo de comunicação com o mundo.
Não consigo perceber a ideia das tatuagens. E mais, quando preferem fazer em locais onde não conseguem ver, como, por exemplo, as costas.
Se não vê, é como andar com um quadro às costas. E, nesse caso, porque não estampar as obras de arte maravilhosas da criação e recorrer a bonecos de gosto assaz duvidoso?

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O ser humano, esse desconhecido

Hoje aprendi mais um pouco sobre o ser humano.

Numa discussão, conversa ou simples troca de opinião, estava muito quentinho a formular a minha opinião e, sei lá porque motivo, tinha a nítida sensação que o meu interlocutor ouvia outra coisa diferente do que eu dizia. Reformulava as frases ou simplificava os termos e voltava a receber a resposta noutra coisa irrelevante para o objectivo da conversa. Terminei a minha participação. Não tem sentido estabelecer com alguém duas conversas paralelas. Não se poderá jamais chegar a qualquer conclusão quando um interlocutor só está disposto a ouvir-se.

Acaba por ser uma estratégia. É uma conversa nula, desesperante, exasperante para quem quer, através do diálogo atingir uma qualquer conclusão. Muito ao género de pessoas que, sem saberem, atingiram o seu princípio de Peter, e, como tal, só são capazes de falar no seu assunto. Há diga nas suas áreas de conforto. E tem sentido, pois que ao fazer uma conversa que apenas utiliza uns paradigmas, não haverá nunca a terrível possibilidade de haver a surpresa de um ideia diferente, ou mesmo adversa à tese instituída. A prazo, porém, liquidará o indivíduo, pois que uma vez encerrado nos seus paradigmas expõe-se à possibilidade de ficar fora dos contextos, apesar de cheio de certezas e razões, só que, só.

Eis um esboço para um retrato sobre as hierarquis no Portugal do século XXI.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Imaginar o real

Entra no autocarro. Ocupa um qualquer lugar que esteja disponível. O semblante que transporta é o de todos os dias e nele se encerra qualquer hipótese de conjectura sobre a vida que possa acontecer entre cada dia que entra no autocarro.
De nariz adunco, boca em risco e inexpressiva, uma longa cabeleira sempre penteada e com os olhos escondidos debaixo de uns largos óculos escuros. Nada se consegue saber, nada é visível, não deixa mensagens ou pontas soltas. Não um olhar, pois que não há olhos, não se descobre uma expressão porque a boca não se abre. Apenas uma cara fechada. Podería dizer que está à espera que lhe devolvam algo sem nunca conseguir saber o quê, nem de quem.
Vive num corpo grande, de medida extra-large. As calças coleantes evidenciam mais que umas pernas, mais que um rabo, mais que joelhos... mostram tudo isso e mais o que está a mais. Dos pés sobem umas botas para lá dos joelhos. Podiam ter sido umas botas dos mosqueteiros de Dumas, ou de um qualquer filme de juventude, mas a negritude de toda a roupa impede essa audaciosa ligação. Nada tem uma componente lúdica, tudo obedece a uma regra, e essa regra é negra. No tronco um top sem mangas, preto e coleante e marca um peito que se esqueceu de amadurecer e se espalha sem grande evidencia sobre as costelas. Nos pulsos adereços vários e quase todos com reflexos prateados de imagens de ossos e caveiras, ou mesmo apenas picos.
Aquilo que se sente é que na cor se faz o luto da sua feminilidade que dessou de existir, de uma cintura que não está lá, de um peito que não desabrochou e de uma linha que se expande fora das linhas.
Que vida pode haver nesta trágica personagem?
Celebrará o amor? Ou vive numa expectativa de uma entrega arrojada a uma vida dissoluta de sexo apenas com parceiros ocasionais?
Vive, isso quase seguramente, uma figura de determinado paradigma suburbano, anti-social com uma visão deformada do mundo. Um núcleo alheio ao que a rodeiam, ausente de côr, de emoção, de projectos, de futuro. Apenas repetições grupais que se revêm uns nos outros como membros desse tipo de sub-mundo. Onde mesmo que o tempo passe e a magia se atenue, manterão os mesmos paradigmas.
Será que, no fundom não vivem também na expectativa de que um dia, algures num tempo mítico, apareça um qualquer ente encantado, que pode ser um príncipe encantado que numa palavra envolta nos poderes mágicos do amor os arrebate do negro e faça desabrochar mais umas flores solitárias para o mundo?

Uma viagem

Decidi-me a fazer uma viagem ao meu passado. Coisa simples. Um ou outro detalhe que me incomodava. Havia uma palavra que ficou por dizer numa conversa e outra que levou outro entendimento. Coisas usuais quando me meto a repensar o tempo.
E apanhei o combóio da memória e lá fui em primeira classe. Bem sentadinho, internet e ar condicionado.
Ao chegar ao meu destino foi um gosto rever as coisas de outros tempos. Olá a este a àquele! Que coisa boa, sorrisos para toda a gente que devolviam com o agrado do costume. Harmonia, paz e tranquilidade. Que passado! Tenho que vir cá de férias por uns tempos! Isto sim!
E lá fui andando e andando à tua procura. Não estavas em casa, nem no emprego, na escola, no liceu ou sequer no sítio combinado. Tinhas saído. Sempre saído. Sò eu lá estava...

Pois é... Esta coisa do passado não se transforma. Só o presente! Vou-te ligar.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A memória

A memória é um tema recorrente. Diria que tem quase vontade própria. Nós tempos um enorme armazém com milhares de estantes onde guardamos milhões de memórias de um sem número de tantas coisas. Ás vezes... puf! entra em mim o conteúdo de um dessas estantes.

Porquê? Para quê? Acho que nunca saberei.

Poema a uma memória

Uma memória
E eis que ela surge.
Da linha do tempo,
Do fim da memória,
De onde já nada havia.
E recolhe o tempo,
A atenção e o devir.
Tudo fica em suspenso
Mercê da expectativa.

Já nada existe.
Apenas pó da vida,
Que se fixa na memória
Refazendo o passado.

E tudo retorna,
Volta a haver sentidos,
Sem causalidades.
Apenas um sopro quente.

Tão fugaz que se esvai,
E passa a outro tempo,
A outra memória
E nunca este presente.

Fechar os olhos

Quando fechamos os olhos, muitas vezes não continuamos a ver. É certo que já não é o reflexo da luz nos objectos que estão à nossa frente, conferindo-lhes a cor, a forma e todas as tonalidades. Fecho os olhos e vejo tantas coisas...

São coisas sem nexo aparente, coisas cujas formas se esticam e encolhem, cores que se espandem e, a grande e colossal diferença, vejo o que sinto. Não o reflexo da luz, mas o reflexo do meu sentir, do meu amar, daquilo que importa. Está tudo lá e à minha disposição.

E porque acredito que o amor vive para lá de mim, consigo vê-lo, tocar-lhe, senti-lo e cheirá-lo. E, para que conste, não tem forma, nem cor, nem sequer volume, apenas temperatura!

A música parou e eu sentei-me na minha cadeira. Quem é que ficou de fora?

Da mãe natureza, ou da mão de Deus

Nas árvores o amarelo de inofensivas pintinhas vai sarapintando as folhas, dando, a cada dia um tom diferente. Vai, assim, o amarelo tornar-se a cor dominante que, com o peso do sol que transportam, fará com que os ramos as soltem, cansados.
No chão, um mar de folhas, memória de imensas sombras refrescantes, irão transformar-se, com a ajuda das chuvas, numa pasta que durante o inverno se converterá no rico alimento das árvores que permitirá que estas, na Primavera se encha novamente de uma imensidão de folhas verdes escuras. Nem um único apontamento de amarelo se verá, até que seja novamente Outubro, mês de Outono.

sábado, 5 de outubro de 2013

Uma ideia fora de contexto

A frase de "Sou um pedinte de afectos" que utilizei numa poesia minha tem cada vez mais sentido. Há, na nossa vida, um sem número de movimentos, de gestos, de intenções que buscam tão somente receber essa "esmola" de afecto.

Dirão alguns, seguramente sábios, que a razão reside num qualquer conflito que ficou perdido no tempo mítico da alcova materna, ou noutra rejeição, única, ou repetida, desse afecto. 

Não consigo saber se é exclusivo de uns ou comum a todos. Penso que é comum a todos. Cada um pede como consegue.

Podia, agora, entrar no humor e fantasiar sobre se cada um pede onde está o seu "mercado", o seu "cluster" e fazer disto uma conversa louca de economês, mas não é razoável. Será, no entanto, uma ideia a reter. Pode, eventualmente, haver tipos comportamentais onde o nosso afecto seja mais rápida e duradoramente saciado. Mas não sei. Ainda não meditei o suficiente sobre isso. Mas vale a ideia.  

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Outubro, outubro...

Manhã aziaga! Tudo difícil e complicado. Tempo abafado. Que os ares de Belzebu se esfumem e deixam a graça do Sol entrar em redor da minha alma!

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Para banda desenhada

Ao som de: Left in the dark - Jim Steinaman
Trecho "And there are no lies on your body, so take off your dress, I just want to get at the truth"

Uma prancha, ou duas de banda desenhada de acordo com o desenhador.

Quadro um
Um casal entra numa sala. A sala terá um sofá, um aparelho de som e o resto da parafrenália que se supõe numa sala. Pode até haver umas rendas sobre o sofá e uma noldura com a foto do casamento!
Quadro 2
Ele põe a música a tocar, portanto de costas para ela, e ela desaperta o botão da camisa, aparecendo um blop em cima do peito que saltará graciosamente.
Quadro 3
Os dois a olharem-se e por cima a frase da música ( E não há mentiras no teu corpo, portanto tira o vestido, pois só quero chegar à verdade )
Quadro 4
O jovem diz:
Vamos, então falar da verdade? (olhar de matador dele)
Quadro 5
Ela pestaneja e faz um riso de aceitação romantico
Quadro 6
Ele baixa a cabeça e faz o riso sacana de quem conseguiu o que quer. No braço uma tatuagem qualquer.
Quadro 7
Ele levanta a cabeça e apareçe um ponto de interrogação em cima dele. Ela mantêm o mesmo olhar.
Quadro 8
Ele, com enorme cara de espanto, diz: Mas ainda estás vestida?
Quadro 9
Ele a levar uma bofetada na cara que lhe fazem saltar os olhos das órbitas e a tatuagem do braço.
Quadro 10
Ele no sofá de braços tombados e à volta da cabeça rodam as peças de roupa que ela tem vestido. Ela sai e aperta a camisa.

Sobre a fotografia


A fotografia é apenas um registo. O mundo está ali, à disposição de todos e de igual modo. As máquinas ajudam. Algumas muito, mesmo. Há também os programas informáticos que equilibram as cores, os tons, centram, limpam sujidades, acrescentam apontamentos visuais, enfim.

Eu sou adepto da foto que a máquina capta, que é, grosso modo, aquilo que o nosso olho vê. Fazer o enquadramento, escolher o momento, a luz e a velocidade pode fazer a diferença entre um bom momento estético ou uma mera recolha de luz.

Apesar da fotografia estar ao alcance de qualquer um, nem todos fazem boas fotografias.

A fotografia que se vê está torta, com a luz desequilibrada e queimada no topo. Quanto ao resto, é um foto de perspectiva em ponto de fuga em baixo sobre um plano liso. Banal.

E esta

"Os meus heróis são os meus fantasmas."

Ouvi a frase assim, ou deturpei-a porque assim tinha mais sentido, pelo que a sua autoria é duvidosa. Se pertencer a terceiros é de uma música, acho que Pink Floyd. Mas não é relevante.

Quam são os meus heróis? Sa minhas figuras míticas que conseguem atingir metas que valorizo. Logo, os meus fantasmas, reflectem a minha ambição de conseguir atingir essas metas. E os meus heróis são Santos, são seres humanos excepcionais, são figuras históricas que marcaram um determinado período, são lendas e são, até, os heróis dos bonecos animados. E o dado ainda mais relevante é que são todos de valor positivo. E esta é a minha crença profunda no Homem e na sua alma.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Variações sobre o mesmo tema








Um certo fascínio temático.
O tempo silencioso

Lendo 035

Ao ler a História da Inquisição Portuguesa encontro a descrição do elenco dos delitos:

- Adesão às crenças luteranas
- Observar cerimónias ou costumes judaicos ou islâmicos
- Negação da vida eterna
- Não aceitar a transmigração das almas até ao dia do Juízo.
- Contestar a virgindade de Nossa Senhora
- Acreditar que Cristo fosse o Messias do Antigo Testamento
- Practica de bigamia, bruxaria ou feitiçaria

 A síntese é curiosa. Se por um lado proíbe a prática religiosa fora do cristianismo, não admite, também, discussões sobre três dogmas.

Se ocorresse este propósito nos dias de hoje teríamos um tal encadeado de leis que ninguém se entenderia ao certo nos limites da transgressão...

O nosso lastro no mundo

Na exposição da Maria Keil, em Cascais na Cidadela ocorre-me o seguinte: Que diabo de coisa esta de se ser criador de algo, umas coisas magníficas. Acontece é que para dar uma ideia de conjunto da pessoa escolhem um monte de registos feitos ao longo da vida. Muitos deles imbuídos de estéticas assaz duvidosas, mas em vigor e surpreendentes a um tempo, e outras, até, de estética duvidosa. E nesse conjunto acaba por se perder o bom, o válido.

É difícil perceber que as pessegadas devem estar ao pé das limonadas.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Lendo 034

"Eu nasci sebastianista, eu vivi sebastianista, eu morrerei sebastianista, e hei-de renascer sebastianista." Mendo Castro Henriques, in Vencer ou Morrer, pag. 236

O sebastianismo cedo marcou o ambiente onde nasci e fui criado. Tanto assim é que tenho um irmão com esse nome. Ora vamos a teses.

Ser sebastianista é, de certo modo, futurizar o presente. Em poucas palavras o sebastianismo é a crença no quinto império, o do Espírito Santo, onde, tal como diz O poeta, Portugal se cumprirá. E é nesse sentido que D. Sebastião, o Rei que personalizou a quebra, a falha e a ruptura, se torna no Desejado que retornará numa manhã de nevoeiro, ambiente de profunda espiritualidade.
Há longa e basta tradição e registos deste sentir e desta emoção que se confude no sentido mais profundo da Saudade como desejo de um mundo a realizar-se.

Para mim encontro todo este tema numa dinâmica de retorno. Temos em nós a ideia inata do Paraíso, que é Deus na sua plenitude. Lá tudo se completa, tudo é, e nada falta, nem sequer a palavra falta tem sentido. É um momento eterno de tudo. Com o nascimento, com a entrada neste mundo, alguns ficam prenhes a vida inteira desse paraíso perdido e ficam-no cheio de saudade que é a memória desse tempo inicial que se projecta no futuro, onde se volta novamente ao início.  

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Genes

Teorias à parte, somos mais os genes que nos fizeram do que aquilo que entendemos que somos.

A pergunta que fica: São os genes estáticos ou dinâmicos? Como agregamos informação aos nossos genes? Ou é a mão de Deus que escolhe a mescla que quer na fecundação do óvulo pelo espermatozóide? Este tema comporta em si tantas questões que a menos má, e ao mesmo tempo a mais brutal é o destino. Se tudo se decide no acto, no momento da fusão, toda a vida é apenas a agregação de informação em cada um de nós. Uns entendem, outros compreendem, outros ainda acham que sim e nessa mescla agimos com o que na realidade estará pré-determinado.

Deduções

Quando não se está, não se despe. A nudez é a essencial forma do ser.

ferro oxidado

O afecto em carne viva
Pinga lágrimas de dor
Sangue que seca na alma
Como pinturas ancestrais.
E nesse espaço de refúgio,
Do prazer e do amanhã,
Onde morava a confiança,
O conforto e a segurança,
Amontoam-se negros registos.
Tudo em côr de sangue seco
Sem futuro a vir.
E sem nada que importe,
Fica a tinta marcada.
Mancha de emoção,
Marca de um sentir.
Ferro oxidado,
Quebradiço e em pó.

De um passado

Do passado,
Desse tempo
Em que tudo havia,
Do tempo a futuro.

Resta apenas memória,
Do afecto e da vontade,
De querer e bem querer,
De ser e vir a ser.

Não há tempo
Nem sequer futuro
O presente apenas repete
Uma encenação mítica.

E na história que conta
Só se diz da luz e da cor.
Mas mito que o seja
Comporta, também dor.

E essa fica no caminho
Da encenação montada
Forçada para recriar
O passado que nunca foi.

Em riste!

E ainda em riste,
O ponteiro da razão!
Já liquidou o chão
Onde resistia uma emoção...

E vibra, audaz!
Seco como um pau.
Ponteiro, afinal.
Uma vara sem afecto.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Pergunta

"Qual é a saída de emergência da vida?"

Atenção que a saída de emergência serve para salvar...

O eu e o eu

Não sei ser
Diverso do que sou.
Má sorte ou embirração
É deste modo que me dou.

E de que valia ser outro?
Outro mais mansinho,
Ou até queridinho?
Se não sou esse outro.

Sou como sou
De tudo, um pedaço
Mais um naco de nada.
E mais se houver espaço!

Uma unidade de Deus,
Assim me sou!
Tal como aos demais,
Também em mim tocou.

Fim de semana em salga!

Ora enfiado, senão mesmo afundado em água salgada, ora Sol a curtir a pele.
À noite purguei toda a àgua que o meu corpo, ainda assim, fixou.

Há finais de Verão que são uma verdadeira tortura.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Será um futuro?

Mais uma manhã mde Setembro. O tempo ainda está ameno. O Sol nasce com todo o seu esplendor, ainda que se note já a deslizar para os lugares invernios. A chuva outonal ainda não se quiz apresentar esta ano, deixando muito folha nas árvores capazes de proporcionar uma deliciosa sombra que com a leve brisa refresca o espírito todo.
São as horas co costume. Nada de novo, nem nada de diferente. Tudo o que normal e natural que aconteça numa manhã de Setembro acontece com o vagar e a traquilidade que vagueia pela avenida, assim como eu. E nesse espírito desço-a como sempre. Cruzo-me com os mesmos rostos, todos os que somos habitantes desta zona. Conhecimentos que não são confirmados, mas que estão todos os dias replicados nos mesmos caminhos, e nos mesmos  gestos e hábitos. A porteira que com o vagar de décadas lava a mesma entrada do prédio repetindo os mesmos gestos de sempre, só que com mais dores nas articulações. Na perfumaria a grade apenas aberta até meio para que aquipa de limpeza remova o pó de ontem que a noite fixou em todos os lugares do costume. Na agência bancária, o cinzento de uns fatos de fibra, movimentam-se nos mesmo gestos de quem liga, conta e se prepara para receber os mesmos clientes de sempre, oferecer os mesmos produtos e distribuir os mesmos sorrisos desumanos. A meio do passeio o enorme camião quie ontem também fazia a mesma manobra para abastecer todos os volumes, caixas e pacotes que se vão enfiar em sacos de plástico e depois colocados nas prateleiras de quem vive nos andares de cima desta avenida.
E nesta avenida que desço, sou eu também mais um que desce. Sou um rosto, uma cara, talvez familiar que se repete todas as manhãs. O mesmo café, no mesmo estabelecimento. Os mesmos gestos, pois replicamo-nos na nossa vida sem novidade. Somos, uns para os outros o garante de uma vida vulgar, comum, sem incómodos que se limita a repetir. Pequenos nadasm coisas sem nenhuma importância, mas todas elas juntas servem para certificar a nossa vida. E a certificação dessa vida é, ao mesmo tempo a certeza e a tranquilidade que amanhã será igual ao que foi ontem e ao que há-de ser daqui a uma semana. Tudo sem sobressaltos. O mundo a rodar comnosco lá dentro. Certificamos o passado e garantimos o futuro.
E, assim, não se estranha o momento. Podemos até abusar da sua tranquilidade e ousar fazer humor. Nessa perspectiva, e tentando chegar a alguém de um modo diferente aconteceu o tudo e o nada.
No meio destas reflexões que me entretêm, vejo sair de outro café uma senhora que todos os dias arrasta para a rua um cavalete com placas de ardózia, onde com giz de cores diversas tenta tornar mais apelativo todos os pratos que se dispõe confecionar. Tudo para que os seus clientes vejam satisfeita a sua sensação de fome e ela, no outro lado, sinta que a sua vida tem mais sentido.
Dirijo-me, então e digo-lhe:
- Sabe, para si, sou o que desce a avenida, e para mim é a senhora que coloca o menu na rua...
- ....
E, em vez de um mundo de bairro, de proximidade, de repetição diária, sinto o anonimato do século XXI. Uma muda interjeição e toda a amplitude das suas costas....
Não é o tempo que muda, mas a disposição que cada um de nós tem para aquilo que o mundo possa ter para nos surpreender. É como se uma sombria atracção para a solidão nos empurre para um afastamento de quem vive ao nosso lado. E desse afastamento constróiem-se mil argumentos, desde a droga, ao conto do vigário, à pobreza, a sedução sem sentido, ou o que mais se queira colocar para fazer barreira à comunicação.
Os gestos dela, maquinais, repetitivos, todos os dias, não são um convite à certeza do amanhã, mas uma fuga ao hoje, à vida e à surpresa.

Segui o meu caminho. Talvez amanhã, à mesma hora, ela responda a um sorriso.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Frases para o facebook

E quando o mundo corre cinzento e carregado, cheio de degraus para subir, caminhos com pedras e apenas as  mãos servem para segurar, olho para cima e, em vez de chorar, vejo um sol que ainda brilha. Quando lá chegar, o caminho foi meu!

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Reflexão de uma insónia

Quantas paredes na nossa vida não são mais que cortinas de fumo? Uma vez passadas, tossidas e sentidas o caminho se abre de novo limpo e tranquilo?

Mas custa passar, claro que custa. Mais que passar, custa verificar que é apenas fumo!

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Ao futuro

O sangue que me mata
Salta em golfadas na garganta.
É uma vontade impossível
Ao ver um futuro que se espanta.

Cinzentos de horizontes gastos
Que se descarta de um futuro
Numa indolência obrigatória
Num mero ganho somente seguro.

Nada já resta para cumprir.
Nem um mar ou sequer maré.
Desfaz-se tudo o possa ser algo,
Ou que à estrela não tenha fé.

O amanhã é depois de ontem apenas.
E o futuro nem promessa vale.
O espírito perde-se desde logo
Quando o Ser é um mal.

Levantem-se as armas,
O bastão é-nos milenar!
Ser é eternidade.
O restante, apenas passar





Esboço

Encostada. Com o peso do corpo contra o poste, quase a escorregar. A desolação e o desconforto estão estampados no rosto. A expressão tinha o desenho de um choro contido, quase que se advinhava a lágrima acomulada nos cantos dos olhos pronta a explodir e a escorrer pelas maçãs rosas que arredondavam a cara. Tudo se afigurava ao pior drama existencial da adolescência. E que motivo podia haver para tanto? A última troca de palavras, naturalmente brutas e azedas com a mãe como qualquer outra irrelevância igualmente desproporcionada.
A mãe dizia em tom de desabafo e evitando que mais conflitos: "Tomara que faça todas as birras e todos os dramas agora e nesta idade de modo a que quando crescer se dê conta que não só são tão irrelevantes como ridículos e que futuramente só perca tempo a discutir coisas que sejam verdadeiramente importantes."

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Como é o eu?

A minha circunstância,
Aquilo que me individualiza,
É íntimo, privado e público.
E é infinitamente múltiplo.

E assim não há mediania.
Em qualquer momento
Há sempre a disfunção
Do ser com o mundo.

E não havendo unidade no eu,
Como pode haver solução
Para o conjunto dos outros
Que vivem, assim, como eu?

Frases lapidares

Daquelas que se ouvem e que ficam bem em qualquer sala, sobretudo pousadas sobre o napron que está em cima da televisão:

"Essa tivestes bem!"

O sol que te entra nos olhos

O sol que te entra nos olhos,
Que te franse o olhar,
É a alma do dia
Que se esforça para entrar

Um mar de esperança,
Sol que é luz e calor,
Que te abra um sorriso
Com toda a força do Amor.

E que assim permaneça,
Num dia que fique sem tempo,
Apenas o somatório
Dos afectos num único momento.

Da morte

E sem certezas,
Sem um segurança...
Apenas a minha alma,
Que jamais descança.

Invade todo o espaço,
Onde se perde de si,
Numa imensidão de tudo,
Um mar de incertezas sem fim.

Nem na morte alivia,
Esse certeza de futuro,
Que será uma mudança,
E não um ponto seguro.

E essa morte que é fim,
Pode ser ela um princípio,
Ou uma dura passagem
De volta ao primeiro inicio.

E sendo a última questão,
A derradeira incerteza
Que me fará ser homem
Que medita nessa natureza.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Facilidades e dificuldades

A viver a ambivalência do destino. Se, num momento as coisas pareciam fáceis e os objectivos atingidos, antes mesmo de cumprir, lá se desmorona o caminho e se volta atrás. Mas o caminho é em frente!

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A possibilidade de ser feliz

Num mar...
Noutro mar.
Outro corpo.
Outro eu.
Outro.
Aí,
Eu fui feliz!

Aqui,
Agora,
Revivo-o,
E volto a ser feliz,
Pois fui eu que o vivi.

E essa memória,
Essa recordação,
Esse calor...
É tão meu,
Como do momento.
E é só em mim que ele vive.

Pois somos os dois o mesmo.
Sempre.
A possibilidade de ser feliz.
Sózinho,
Numa memória.
De mim.

O erro

Lastimo o meu erro.
E nele me fico enfim,
Enrolando-me noutro,
Que é o erro de mim.

De poder-me outro,
Melhor que o presente.
E ficar neste
Sabendo como se o sente.

É um fustigar-me.
Moer-me de este meu querer,
Que será amanhã
Um vício de me corroer.

E são, depois, actos
Que obrigam a remédio,
Não de meras palavras,
Mas do modo como me entendo.

Junquinha

Junquinho é o nome popular de uma planta da família das Ciperáceas considerada no Brasil como uma planta
daninha. Produz um rizoma que é comestível e conhecido desde a Antiguidade, sendo que no Antigo Egito eram transformados em farinha ou usados como bebida. É considerado um afrodisíaco e muito cultivado na Espanha. Tamém é chamado de:
- coco-capim
- junça
- tiririca-amarela
- chufa
O nome científico do junquinho é: Cyperus Esculentus.

Esta é a designação técnica e científica. Para mim é uma praga que se instalou lá na minha casa. Diz-me uma pessoa que é sabedora desses detalhes do campo que para me desfazer dela tenho que a arrancar pelas raízes e apanhar todas as sementoes que ela lança, pois que a cada uma que fica na terra podem nascer uma série de novas plantas.

Achei desde a primeira explicação uma ideia curiosissima. A erva daninha propaga-se debaixo de terra, pois deixa sementes em vários lados que não os conseguimos detectar. E neste campo, eu, humano, funciono como o ditador que procura normalizar e regular a natureza das coisas para obter apenas o usufruto dos meus desejos. O Junquinho, por sua vez, usa estratégias para sobreviver e fazer vingar a sua espécie. Até aqui podemos reflectir a luta do bem e do mal. E no mesmo instante estar nos dois lados. Pois que, e segundo a explicação supra, o dado junquinho até pode ser uma planta útil.

Onde vive mesmo a verdade? Ou a questão é mesmo o que é que se torna verdade em função da utilidade.

Torres de Lisboa

Esta tem mais de trinta anos. Anos oitenta. Todos cheios de chumaços e com gente cheia de certezas e raramente com dúvidas. Tema em discussão torres de Lisboa. A possibilidade de se erguerem duas torres, bem perto da Ponte Salazar, sendo que, em altura, ultrapassaria o tabuleiro. As discussões mais que técnicas eram inflamadas por, essencialmente, uma certa ideia de modernidade que Portugal deveria absorver, o que veio a acontecer com o complexo das amoreiras.

As ditas torres erguiririam-se nos terrenos onde hoje está a Lx Factory, anteriores intalações da empresa Mirandela, que era um dos maiores parques gráficos dentro de Lisboa. Ou seja, mesmo no meio de Alcântara, uma parede de betão entre o tabuleiro e a Ajuda, o MNAA e, obviamente sobre a vista de Lisboa.

Se houve tantas vozes pelo parque de contentores, imagine-se o que se diria sobre tamanho terceiro mundismo arquitectónico. Enfim, modas que a providência Divina graciosamente nos acautelou. Que sirva de exemplo para o futuro, coisa que nem sempre é muito fácil, pois há, tendencialmente, um certa fé cega em acreditar que a moda do momento é a luz do amanhã, quando, na maior parte das vezes não passa de uma mera excitação emocional, um pouco descontrolada de alguns...

Nada é apenas uma história

Corria. Saia rápida contra o vento que lhe secava os olhos, deixando, contudo, voar as lágrimas que caiam... E soltas no ar desfaziam-se, fragmentadas como a sua alma. Não havia dor como a sua. Não podia haver.
Não era rancor. Nem desanimo. Não era desilusão nem desespero. Apenas uma profunda tristeza. Do fundo da sua alma.
O futuro não era assim. Isto não aconteceria. Sabia que tudo isto, apesar de ser verdade e de estar a acontecer era, no fundo, uma enorme mentira do mundo.
Que ideia essa de desarrumar o futuro? Não!

Nota: Daqui se pode ir em três caminhos.
1 - Contar a história de amor que finda
2 - Meditar sobre a ideia de projectos que terminam, como é que se foi até ali. E que presente nasce desse fim. Outro romance? Outro amor? Amargura? Como fica o amor próprio? E a capacidade de reconstruir?
3 - Como é que futurizamos. Como é que nos projectamos. O que é que projectamos? Somos nós, alma, ou é a nossa animalidade que quer acasalar e se projecta nesse acto?

Ou seja: O passado, o futuro, e o presente.

Atenção

Num dos meus mais utilizados meios de inspiração para tantas coisas, o autocarro.
Chego e sento-me, ou não, na paragem e lá me entretenho com o que dá. Já me aconteceu estar tão absorvido no que estava a fazer que só fui no segundo que passou. Uma vez lá dentro já escapei várias vezes a minha saída. Geralmente por distracção. Hoje, porém, a razão foi um pouco diferente. Como há sempre os histéricos do botão de parar é raro tocar nesse botão. Apenas olho, quase sempre, para o sinal de parar. Mas, e como faço quase sempre os mesmos trajectos, e às mesmas horas já tenho uma carrada de amigos que, presumo, sabemos as paragens onde entramos e saimos. E hoje, não só não toquei como nem sequer pensei quem é que iria sair. Resultado: O autocarro abranda, aproxima-se da paragem e arranca. Só da tempo para:
- Eh, pá! Olha, não sai....
Tudo tem uma razão de ser. Voltei ontem de férias. Não há ainda impregnado o sentido de stress e de obrigação. As coisas ainda correm na ordem normal da criação. Com paz e compreenção.

Assim, e no meio da contingência, deparei-me com esta pequena maravilha:


A Papelaria Fernandes no Largo do Rato.
Quem me dera manter este espírito durante o resto do ano.