sábado, 29 de setembro de 2012

Um sol de outono

O sol entra, tímido,
pela janela da sala
e espraia-se ali pelo chão,
como quem estende
uma toalha ao comprido.
Dá-me cá umas ganas
de o agarrar pelos fagotes,
e pedir-lhe que me dê
Aquele calor do mês passado.
Mas o malandro ri-se,
borrifa uma chuvinha,
e esconde-se atrás dela.
Não quer saber disso,
está ali para se despedir
e dizer-me
"Até para o ano!"
Volta a piscar o olho,
E reaparece,
numa gargalhada
que ilumina a sala toda.
Nada é definitivo.



sexta-feira, 28 de setembro de 2012

De um dia para o outro

E, de um dia para o outro, a população que comigo convive vestiu-se de inverno, ou quase.
Vieram os casacos, camisolas, coletes e gabardinas. Descalçaram as sandálias e enfiaram botas até aos joelhos, quando não mesmo passando-os. As t-shirts ou mínimos panos que faziam questão de mostrar os soutiãs da cor absurdamente inversa a estas ficaram debaixo de roupa de mais pudor. Os decotes ficaram em casa, definitivamente!
Esta vista poderia ter sido devastadora para a manhã, mas há sempre qualquer coisa que nos faz crer que se algo é menos bom, há sempre alguém que nos mime com uma coisinha ainda pior. Ao meu lado alguém trazia um pão com um ovo mexido num qualquer saco para o manter a temperatura e ampliar o odor. E se impossível de suportar em condições normais, imagine-se a meu lado!

Ah!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

E os decotes? Bom........

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Ai que bem me dava

Um nadinha de 18 anos. Um tempo de juventude, essa alquimia única! Ai que bem que me dava!
Partir sem consequência alguma. Chegar onde quer que fosse. Ficar tranquilamente. Que se dane a urgência, a dificuldade e a pressão. E da última apenas a atmosférica!
Sair à noite até apetecer, e ficar a conversar sobre tantos nada que até aprecem ser tudo! E nos olhos um mundo inteiro para viver!

Bolas que quase que fiquei cansado! Alguém viu as minhas pantufas?

E chegou

O famoso Setembro da minha alma, aquele que trás consigo a chuva, o frio nocturno e até uma camisola. Na cama já sabe bem um cobertor e o sol começa a não conseguir chegar ao fim do dia, indo-se embora sem ficar para jantar. A melancolia deste Setembro aflige-me a alma, deixando-a desconfortável.
O azul cinza vai tomando conta do horizonte. O branco das nuvens escurece, deixando de ser uns pedaços de algodão fofo, para se tornarem nuns rolhos de algodão sujo e gasto. O sol brilha debaixo de uma finíssima rede humidade que dá uns aros de brilho ao mesmo tempo que o arrefece.
No chão as folhas das árvores vão fazendo uma pintura de cores castanhas que com a chuva se transformam em composto orgânico para dar nutrientes à terra.
Este ciclo da vida é sempre assim, a cada Setembro, a cada Outono fico com a alma presa por um fio. E esse fio é sempre a minha esperança da primavera!

Quero


Quero chegar ao pé de ti,
alma minha, e abraçar-te.
Dizer-te assim baixinho,
Como se fosse um carinho,
Que somos um só.
Chegados a este mundo
Que um com o outro contamos
Mesmo que nem sempre.
Mas, vê tu, alma minha,
Como eu te encontro
Lá no fundo da alegria
Num sorriso de criança
Num sol que se abre
E na luz que se convive
Somos nós, vê bem...
Uma unidade em dois!
Alma minha.

Ás voltas com o passado

Às voltas com o passado
Como num beco escuro
Fora daquele conforto
Daquilo que já é seguro

São os demónios do erro
A face dura da culpa
Aquele gesto descuidado
Sempre analisado à lupa

E nunca mais pára
Este exame examinado
Desde todo o tempo
O remoer nesse passado

E nem se vê o sol
Que também ali andou
Num tempo mesmo ao lado
Do dia que o tempo marcou.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Procuro

Um arco-íris para mergulhar na sua nascente!

Melancolia

Melancolia
É como uma apatia
Que fica em suspenso
De algo que não tem espera
Um vazio na alma
Sem ambição e de braços caídos
E um olhar ausente,
Parado no infinito.
O sangue já não corre,
Desliza, a custo,
Para músculos cansados
Com vontade de nada.

O agora que é nada

O agora que é nada
Não é coisa alguma
Um pedaço que seja
Apenas dita um futuro

Ser é projectar-se
Fazer do caminho um passado
Que nasce no Ser
E a Ele retorna

É ter onde se realizar
Um futuro que seja
Dentro da casa da alma
Eternamente Amor

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Ser

Há um ser sem vontade
De ser aquilo que é
Gostava de ser outro
Um ser que fosse verdade.

E não ter vontade
Não é o mesmo
Que ter vontade
De não ser?

E ter vontade de não ser
Não implica ter, afinal,
Uma vontade
Que é não ser?

O não que, sendo-o,
É, afinal, um sim.

Às voltas

Às voltas com o tempo. Sim, o tempo! Esse tic-tac repetitivo que não se cala. Nem sequer pára. repete-se até ao infinito. E eu, parece que de fora, fico à espera, assim que ele pare.

Poesia em prosa.

Será que deixa de o ser?

Frases


"And there are no lies on your body, so take off your dress, I just want to get at the truth."

E não há mentiras no teu corpo pelo que despe-te, eu só quero a verdade. - Uma frase que hoje me inspira.

A nudez é a última verdade do corpo. Onde residirá a última verdade da alma? Não a minha ambição para o Bem, para a Verdade, para a Justiça, e demais conceitos, mas a verdade da minha pequenez como barro feito à imagem do Criador? Que verdade encerra este barro? Que que verdade se encerra no barro?

domingo, 23 de setembro de 2012

Prova do crime!


O Setembro da minha alma levou um banho com a água a vinte e poucos graus! E eu que me chorava para me agarrar a uma camisola e a sentir frio... Prefiro o banho de mar, depois voltar a casa e sentir o sol no corpo aos poucos com uma grande tranquilidade!

Mais equinócio

Ontem estive deitado na praia e ao sol. Tomei um magnífico banho de mar. Isto em pleno equinócio de Setembro.
A 21 de Março é dia de equinócio também, ou seja, supostamente devíamos estar a experimentar o mesmo tipo de acções. No entanto a praia está fria, a água do mar bastante desconfortável e não é usual fazer praia nessa altura. Porquê?

Duas razões. A primeira, naturalmente de ordem física, o globo terrestre arrefeceu durante o inverno pelo que não expele a energia calorifica do verão. A segunda, interior do próprio homem, levamos tempo a mudar de hábitos.


Ah, é verdade, ainda vou até à praia.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Equinócio

Amanhã, pelas 14.49 será o momento em que acontecerá o Equinócio de Outono. Será a altura em que o Equador estará em perpendicular com o Sol.

Há nestes momentos uma noção de ciclo que se completa ao mesmo tempo que um novo se inicia. O devir permanente do tempo. A dimensão humana é absolutamente esmagada pela dimensão do acontecimento as energias que conjugam.

Durante anos, o equinócio coincidia com uma ondulação mais forte, impressionantemente mais fortes. Nesse tempo o mar mostrava a sua imensa força e beleza. A força com que fustigava as rochas soltando enormes golfadas de vivas à vida em espuma e jactos. É uma época em que me lembro de estar horas perdidas a olhar este mar na Ericeira.

Talvez este ano reveja esse mar, que como o meu Setembro

E amanhece

Por mais longa que seja a noite, a certeza de uma aurora é certa. Assim aconteceu no junto à fonte do campo pequeno. Os animais que não estiveram em festa nem bailes, nem outras aventuras, tiveram que esperar um pouco mais pelos seus usuais apoios e alimentação. Já o sol ia à altura da merenda e os estômagos famintos da criação deixaram de ter a mais pequena consideração pelos que insistiam em repôr as energias.
É certo que os mais novos foram fazendo o que podiam e sabiam, mas a ordenha não era, de todo, para mãos pequenas e sem o hábito diário.
Maria da Saudade apronta-se e dirige-se rapidamente par ao o canto dos animais acolhendo aos que mais atenção exigiam. É seguida de perto por sua mãe que. tal como ela faz o mesmo caminho.
- Bom dia filha.
- Bom dia, minha mãe! - em som abafado debaixo do corpo da vaca que sente o alívio das mãos sábias.
- O teu pai ainda dorme. Hoje já só se levanta pelo almoço, o preguiçoso!
De volta à casa, e enquanto a mãe começa a depenar uma galinha.
- Ontem, mal te vi! Por onde andaste?
Maria da Suadade esconde a cara para a janela enquanto descasca as batatas para a sopa.
- Andei por lá... bailando... e conversando....
A mãe olha-a pelo canto do olho e vê que os olhos dela estão perdidos na luz da pequena janela e as mãos À espera de um comando para que continue a descascar as batatas. O galináceo, ainda que morto, é certo, começa a ser depenado com uma forma, no mínimo mais entusiasta.
- Ah.... E com quem?
-....
Quase que segue a pele do animal com as penas!
- Chegas-me a cesta para aqui? - Diz a mãe, mudando de estratégia e sem perder os olhos da filha que passam directamente para o chão.
- Pois vai ser uma bela sopa. Desde que não fique cheia!
- O quê, minha mãe? Cheia?
- A panela da sopa... é que o animal é grande. - Diz levantando o bicho pela pata.
- Eu descasco menos batata, se for caso disso.
- Deixa. O que for, logo se vê! Ontem o jantar estava muito picante. Até para o teu pai.
Maria da Saudade não diz nada e começa a preparar a couve para o caldo.
- Já falei com o teu pai... - Diz a mãe voltando ao vagar normal de depenar o bicho. - Já pensas-te no teu futuro?
Maria nada diz, apenas abana a cabeça afirmativamente com a mesma certeza de ontem.
- Bem... vamos ver no que dá.
- E que diz o senhor meu pai?
- Não tenhas pressa. Quando for tempo, ele dirá.
E um silêncio de alguma cumplicidade cai sobre a casa. Ao fundo ouve-se o som da respiração de José Martins. Maria, cuja satisfação interior era maior que a casa, até mesmo o povoado, sai porta fora.
- Vou buscar àgua....
- Ao menos leva o balde, rapariga!
Ela volta, a num rompante segura no balde e segue a correr para a fonte.
- Que Deus te abençoe filha, e guie os teus passos! - diz a mãe num sussurro que abre portas já a uma saudade da filha que sabe que vai sair e fazer a vida dela. Uma felicidade acompanhada da melancolia de ver sair a filha puxa-lhe uma lágrima ao olho.
Sente uma forte palmada no rabo e segue-se ao ouvido.
- Bom dia mulher! Ainda andas endiabrada? -
Ela contorce-se, e satisfeita com o gesto atira para o ar.
- Ontem o jantar estava bem temperado!
- Melhor que o jantar, foi o caldinho de boa noite! - Diz isso enquanto se encosta e escorrega as suas mãos pelo decote...
- Isto agora é doce a toda a hora? - não fazendo grande oposição à investida
- Só quando o doce está no ponto - A mulher mal tem tempo para deixar cair o ferrolho da porta e já a sua camisa cai no chão, dando lugar ao segundo acto de uma peça que não tem fim.  

De volta

Finda a noite, há que recolher os despojos para casa. A festa havia sido animada, cantada e bailada. Agora havia que voltar antes do amanhecer.
Maria e Joaquim depois de tanta intensidade de vida experimentada, haviam-se separado sobre juras. Havia que tentar dar a impressão que nada de mais se havia passado e que havia mais gente para conversar. No entanto, e se por ali andasse alguma avó, daquelas a quem basta um gesto para saber o princípio, meio e fim das histórias, saberia comungar aquele brilho único que ambos tinham no olhar. As almas estavam de tal modo carregadas das explosão de genuíno afecto que era impossível que não transbordasse o mesmo no olhar, nos gestos, na vontade e na compreensão com o mundo que os rodeavam.
Foram, por isso mesmo, quem se encarregou de recolher o grupo a fim de tornar ao povoado. O caminho não era longo, mas tinham ainda uma boa hora sobre a lua. Primeira tarefa foi recolher os que haviam sucumbido e dormiam a sono solto. A razão dos seus sonos, por vezes era bem evidente, pois que a respiração era semelhante a um alambique, pelo que haviam caído de maduros. Outros as forças haviam sido vencidas pela dança, ou mesmo, quiçá, outros esforços imponderáveis que os deixava impróprios para a caminhada que urgia. Estes foram sendo recolhido, e sem muito jeito, foram atirados, tal como fardos para dentro dos carros de bois. Algumas mulheres sentavam-se na orla dos carros, não só para segurar os que dormiam mas também para dar descanso às pernas.
Guadalupe e José Martins não tinham dado pelo tempo, tão entusiasmados estavam nas suas tarefas de troca de conhecimentos. Com o progressivo arrumar das gentes nos carros, o barulho foi-se reduzindo e outros sons começavam a surgir. Sons que, para alguns poderiam trazer algum embaraço.
O grupo que tinha vindo com Guadalupe depressa deu pela sua falta e, conhecendo as suas manhas, começaram a fazer apostas se haveria ainda mais festa ou não.
Esqueceram-se contar com o sentido feminino, bem como outro, também muito apurado, o de sobrevivência! Assim, e num repente, ela pára e diz:
- Mira que se hace tarde. Vamo-nos!
- Ó querida, ainda não. - Diz-lhe puxando o corpo dela e agarrando-se às ancas dela.
- Hay que tener juicio. Outro dia acabamos lo tema. - Diz soltando-se com uma agilidade felina e afasta-se sem olhar para trás compondo o xaile e o que já estava bem a descoberto. Era uma sortida que sabia bem o efeito que sortia. Não deixava de sentir que lhe custava deixar estes assuntos por acabar, mas, e ainda assim, havia passado bem o tempo.
- Raio da espanhola! E agora? Isto não pode ficar assim! - Levanta-se e vai-se arranjando continuando a resmungar entre dentes com a falta de tempo.
Tudo se organiza e inicia-se o caminho de volta ao povoado.
Nem no escuro da noite se atrevem Joaquim e Maria a aproximarem-se. Velam-se pelo canto do olho e seguem olhando para o caminho como quem vê um futuro à sua espera.
José Martins segue mais atrás e enquanto cofia o seu grosso bigode, procura como uma raposa, o sítio por onde pode andar escondida uma espanhola. Aos poucos vai largando o bigode, arrasta o andar e segue, conformado o caminho com o grupo.  

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Maria e Joaquim 4

Não longe do desenrolar destes acontecimentos estava José Martins atrás de um monte de feno já ceifado. Os seus afazeres não eram exactamente zelar pela segurança e castidade de sua filha, mas antes, sentir o frenesim de Guadalupe, uma espanhola que viera acompanhar uns negociantes de gado andaluz. Guadalupe era uma mulher insinuante que sabia bem o que podia tirar de cada negócio em que se metia, fazia o seu número de leitura das estrelas, das mãos ou de qualquer outra coisa, e lançava uns postulados que geralmente eram certeiros. Conseguia, sem muita dificuldade com a acuidade do seu olhar e o seu sexto sentido feminino perceber rapidamente as principais ânsias do personagem que se apresentasse à sua frente. Havia quem dissesse que aquilo era já hábito longo da família que se cruzava com vários ramos de ciganos, mas era coisa que não dava grande importância. Fazia aquilo como uma brincadeira, e da qual retirava algum, pequeno lucro.
Desta feita era diversão pura o seu dia, ou melhor, noite. Estava farta dos seus companheiros de jornada e não queria chatice que a rapaziada nova dava. Faziam muito barulho e pouco trabalho.
Entre a brincadeira com a sua Guadalupe e a confirmação que o terreno estava desimpedido para que não houvesse mais olhos que os deviam, percebe o arrufo que a sua filha tem com aquele que ela já desconfiava que andava a rodear-lhe a casa. Satisfeito com a atitude da sua filho, e tranquilo com o caminho que ela sabia dar à sua vida, deixa-se deslizar para trás do feno.
- Guadalupe, hoje o dia está de feição, vê lá nas tuas estrelas se o tempo não se apressa!
- Que no te quedes preocupado, hombre. La noche es nuestra.
E já não houve nem tempo nem paciência para se gastar com conversa.
   

Maria e Joaquim 3

Maria que se quedara naquilo que fora um ninho de afecto, demora-se a voltar ao grupo e às suas companheiras de paródia. A sua cabeça fica inquieta com algumas ideias que lhe voltam às cabeça sem perdão e cada vez mais incisivas. Bolas! Ela gostava do seu homem! E tinha por ela estima suficiente para quer fazer família com ele. Disso estava certa, e caso houvesse alguma dúvida este desagravo tinha-lhe fornecido matéria de remorsos suficientes. Mas, e por outro lado, não se queria como as flausinas que ela bem conhecia, que aproveitavam tudo e qualquer momento para se atirar para debaixo do primeiro que lhes aparece. Às vezes, tal os modos que se põem que até parecem gatas com o cio, a miar e a tagarelar como umas desalmadas! Ela estava interessada no seu Joaquim, e as coisas até vinham correndo de feição. Havia respeito, estavam em vias de se conversar. Só faltava criar a oportunidade em casa para que seu pai lhe fizesse a conversa. Agora bater assim no Joaquim! Ai, meu Deus! E se ele se ofende com isso? Burra mulher desnaturada! Queres ver e ele pensa que quem usa calças sou eu! Ai que as coisas podem amargar e o tempo está passando! Maria o que foste tu fazer!
O drama subia de tom nas consciência da Maria da Saudade, ao mesmo tempo que as críticas às ousadias do seu Joaquim se tornavam numa doce recordação, pois que caramba, até que não desgostava daquelas coisas!
Ajeita-se, endireita-se, levanta a cabeça e decide-se. Vai ter que ir ter com o seu homem e voltar à fala. Isto tem que passar a ser uma coisa que aconteceu, é passado e eu quero é o nosso futuro. Assim decidida endireita o busto, arma o peito e segue para o grupo.
Ao longe, como seria de esperar, o reboliço está animado. O barulho é intenso e a poeira da dança deixa uma quase providencial penumbra que esconde os palheiros, deixando apenas as sombras a brindarem a alegria à volta do fogo.
É nesse jogo de sombras que se fazem e se desenvolvem os passos de encontro e desencontro de uma juventude que se prepara para a vida. Os velhos, ou as outras gerações, pois que o baile anima todas as idades que estejam dispostas a levantar os pés do chão e rodopiar, mesmo que seja somente o acompanhar do ritmo com a ponta do sapato. São eles que se aproximam e segredam um gracejo a tentar picar o terreno, a ver se consegue captar a boa atenção da moça. São elas que distraídas, numa roda mais rodada se fingem dar um ligeiro encosto no seu preferido. Um mão mão que pede apoio para sacudir a areia do sapato, enfim... tudo se vê nas sombras, pois que à luz, e durante o baile, cada um só vê o que os olhos querem ver.    
Maria, de repente, sente crescer uma certa ansiedade, um temor que lhe vem de dentro, lhe corrói o intimo da alma. "Ai se o meu Joaquim é agarrado numa volta!" pensa ela. E a cada passo que dá o seu receio aumenta. Cada sombra que recebe um encosto afigura-se-lhe ao Joaquim, mas depois não é. Cada abraço de um casal, ela quer garantir-se que não é ele! Está danada consigo mesmo, e avança com fúria e raiva e não consegue deixar de escapar em voz alta.
-Ai Joaquim se me trais que nunca mais sou gente!
Mal finda a frase sente uma mão forte que lhe agarra o braço. Sacudida, volta-se nesse seu estado de fúria e  o seu olhar entra dentro de uns olhos vermelhos, mas com uma luz maior que a estrela mais brilhante em todo os céus do ano.
- É comigo que vais ser gente! Vamos ser gente!
E, naturalmente como nestas ocasiões, vamos nos poupar às figuras de estilo sobre o que sucedeu depois, pois que as juras de amor eterno, de fidelidade inquebrável e demais confirmações escritas pela fala dos deuses do amor foram poucas para selar em definitivo o amor deste casal.
Com a graça de Deus tiveram o seu primeiro conhecimento bíblico cientes que nesse mesmo momento era Deus que os abençoava e lhes dava a chave da vida eterna. 

Este Setembro

Já com um vago e ligeiro sabor de Outono, insiste, no entanto, este Setembro em aquecer o ar. Aqui e ali já se começam a ver pessoas com uns agasalhos, pois que as noites são mais frias. E, aos poucos, o meu Setembro vai acabar por entrar.
Não deixo, no entanto, de sentir que o meu Setembro é-o da minha alma. O outro é como Deus quer. Cada ano à sua maneira. Assim seja, portanto.

Recomecemos, apesar de esse recomeço ser a tarefa da primavera. Seguimos aqui um recomeço mais telúrico, mais chegado à terra, volte-se a humedecer o chão para que nele se abra espaço para a semente fazer a sua cama.

O Sol nasce mais baixo

O Sol nasce mais baixo
Fica assim mais tempo
Na linha dos meus olhos
E eu semi cerro-os

E espalha-se uma névoa
De um orvalho que se liberta
E enche o ar todo
Da humidade de Deus

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Dia de corre corre

Cheio de projectos e ideias para deitar cá para fora, mas completamente ultrapassado pelas vicissitudes de ser pai de família e sustento de uma família.

Vamos ver o que dá amanhã. Hoje já era.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Maria e Joaquim 2

Inconformado com a sua sorte lá segue o Joaquim sem destino à volta da zona da festa. Olhava para o céu e fechava os olhos carregados de irritação e má sorte a sua só conseguia ver o corpo na Maria da Saudade tal como ela veio ao mundo e de braços abertos para o receber. Não cabia em si e o mal estar aumentava. Voltava a cerrar os olhos e era ela que se deitava no feno e dizia-lhe baixinho:
- Anda querido. com Deus como nossa testemunha selemos aqui o nosso amor!
- Era isso mesmo! - gritava o pobre coitado.- Era por amor! Só por amor é que estava disposto a tudo!
E novamente de olhos fechados já se via com ela debaixo da pimenteira que cai sobre a terra e ambos em comunhão profunda do seu amor.
Maria, por seu lado, sente incomodada e com uma nervoseira que não lhe era comum! Tão desajeitada da alma estava que tivera serias dificuldades de recompor o peito dentro da camisa de modo a que não desse azo a falatório, o que, a rigor, já acontecia quer tivesse havido bofetada ou não. Ou então pensava ela que pelo canto do olho não estava a ser espiada por uma série de amigas? E que mesmo as que não olhavam, que não viam, iriam jurar a pés juntos que tinham visto tudo como se estivessem mesmo ali ao lado. E não o faziam por maldade, era mesmo por feitio. Podiam lá aceitar que aqueles os dois fizessem uma vida sozinhos, em privado, ou sequer com intimidade? Isso era impossível. Ninguém a tinha. Mas o assunto não era para ser falado a qualquer altura. Tinha que a surgir a oportunidade para colocar o seu ferrão. Era um jogo em que ninguém ganhava. Todos eram santas, puras e castas até ao momento em que havia um qualquer motivo para quebrar os elos civilizacionais e entrar na área salobra da vida. A partir desse momento a realidade passava a ter formas à medida do desgravo sentido.
Com todo aquele reboliço a Maria ficara inquieta. Não podia tratar assim o seu homem.

Maria e Joaquim

Maria da Saudade e Joaquim Simões eram um casal sem excessos, do mesmo modo que também não viam com mais privações que a restante gente do povoado. A vida corria tal como era suposto. O namoro começado na vindima, e que durara um ano até à declaração paterna foi tendo os seus momentos mais próximos, assim como alguns arrufos que permitiam, também que a temperatura subisse no reatar do amuo. Sobre esse tema houve um dia em que iam deitando todos os planos por água abaixo. Vinham da festa ali para vos lados do Rego e, como era usual o grupo das mulheres caminhava na frente e os homens arrastavam-se a uns metros de distância. A certa altura e fruto dos vapores do bailarico começaram uns a comentar as garotas. Em dando conta do tema, o mulherio abranda o passo e reduz a sua conversa de modo a poder ir percebendo o que fazia a algazarra ali nos moços.
- Ena João! Que ricos amassos que destes nos voltaricos!
- Boa moçoila! E cheia que ela era!
- Estava-lhe ali tudo à vista.
- Não foi bem assim, mas que era um belo pedaço de mulher, era.
Entre o atrevimento e o cantar de galo valia todo o discorrer das bravatas que se faziam heróis galantes junto das raparigas. Se havia os que falavam alto, e nada tinham, de facto, para contar, outros também havia que o melhor mesmo era manterem-se calados, pois as consequências podiam chegar cenas impróprias.
Não se pense que o grupo da frente fora só fazer malha e rezas, pois que muitas também não deixaram os seus créditos por mãos alheias, sendo que algumas perderam um pouco a noção dos créditos e foram mesmo mais além! Mas nada que não tivesse acontecido a seus pais, seus avós e outros mais.
Muitos casamentos se faziam nesses encontros. Uns fruto do tempo e de namorico, outros de bons momentos no palheiro cujas contas haviam sido mal feitas, pelo que lá se encontrariam de novo para marcar boda e baptizado!
Foi precisamente numa tentativa de ir para o palheiro que havia posto em jogo a relação. Joaquim já aquecido da dança e do vinho novo levou a sua eleita para uma zona mais escura. Aí começa a tentar roubar uns beijos. Qual é a mulher que não se sente logo a aquecer e a gostar de trocar às escondidas juras de amor eterno, planos de amor debaixo das estrelas e nomes para os filhos? O ambiente era todo mágico e assim se fazia a festa. No entanto Joaquim, mais animado que o habitual, lançou-se para outro tipo de festa. As mão começaram a ser mais incisivas e fortes no modo como a segurava. Ela nem se importara. Sentia-se do seu homem e dava-lhe gosto a força dos seus braços sobre a sua cintura. O diabo começou a ferver quando as mão se iam perdendo no meio de tanta roupa. Às primeiras investidas sobre o seu decote ainda tentou desviar as mãos, mas como as consequências seriam apenas rearrumar tudo no lugar, foi cedendo até ao seu pudor. Assim, e dando largas aos seus instintos mais puros, foi-se deixando ir, sentindo um verdadeiro prazer.
Para o Joaquim a festa estava longe de terminar. Apesar de não ter feito qualquer tipo de planos para um momento assim neste dia, vivia a consumação de uma ambição desde o primeiro dia que se começara a entender com a Maria da Saudade.
Esta, mulher generosa de bem fornecida, proporcionava um momento mais longo. Já estava Maria semi desnuda e completamente entregue ao sabor do momento quando, e em má altura, resolve o Joaquim entrar em terreno mais perigoso. Foi como, de repente, uma pedra de gelo se chegasse próximo das virilhas da Maria. Estancou num ápice, tapou-se de imediato e deixou na cara de Joaquim a marca dos seus cinco dedos e até do anel de compromisso!
- Queres-me ou não me queres?
Completamente sem saber como voltar a trás, como acalmar a fera, apenas conseguiu baixar a cabeça.
- Vai-te! E pensa bem!
Sem resposta e humilhado, ajeitando-se com alguma dificuldade, segue o Joaquim para o escuro.    

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O ódio

Durante uma manifestação um grupo de pessoas desenvolve um processo de agressão às autoridades e fazem-no escondendo-se na multidão. Apesar de haver, obviamente, polícia infiltrada a acompanhar o processo, e portanto não dever participar ou imiscuir-me nessas questões, algo me perturbou e fui para o centro do conflito. A minha mulher bem me avisou da perigosidade da decisão e da insegurança da atitude, mas como a injustiça é algo que me incomoda essencialmente ( por dentro e em absoluto), avancei.
Fui, então até à frente dos que eram os agitadores e mais estridentes no insulto. Por cima deles procurava, algo idealisticamente, chamar-lhes à atenção que aqueles que ali estavam era a autoridade e esta merecia o nosso respeito, pois é a base do país. ( Engraçado como nestes momento percebemos ainda mais claramente como há certos princípios que devem ser protegidos para além de tudo, e um deles, indubitavelmente é o caso da autoridade)
O olhar de ódio nos personagens era evidente. Um ódio cego e furioso. Fiquei com a nítida sensação que perguntavam, quem é esta coisa? De seguida, passaram imediatamente ao ataque - "Também és polícia!" e "Vai, vai para ali". Por mais que lhes respondesse que em causa está o país e não o FMI, que a polícia era a autoridade, etc, mais sentia que o clima de ameaça pessoal contra mim aumentava. Afastaram o primeiro individuo e veio um segundo, que se achava menos fogoso e mais cerebral e me diz.
" Tu não sabes nada!". Um fulano com uma idade pouco definida, ali entre os vinte e os vinte e cinco, queria colocar um ponto no assunto, pois estava a destruir o ambiente de destruição que estavam a tentar gerar.
Eu volto à minha defesa do meu país, da autoridade e reforço que isso eu sei. E, ao fazer isso, o meu dedo vai apontando para vários sítios nomeadamente a cara do moço. Este gesto que é desagradável ( eu sei) ao mesmo tempo acusa. Nesse momento o clima de ameaça  pessoal volta a subir e novamente surge a intervenção de outros a desviar as atenções. Deixam-me sozinho em frente de um individuo que me dá claramente a impressão que não me dará troco.
O meu consumo de adrenalina tinha sido suficiente. E, mais, percebi que a minha acção estava a ser inútil, logo não tinha sentido continuar ali.
Voltei para junto da minha mulher e achei que esta manifestação tinha outros propósitos que eu não tinha nem podia ser minimamente conivente. Fui para a Fundação Gulbenkian assistir a um concerto.

O que gostava de deixar registado e o que mais me incomodou é a fome de violência e destruição que algumas pessoas têm dentro delas. Pergunto mesmo se não teria algum sentido, nestas circunstâncias haver câmaras ocultas para identificar os cabecilhas e estudar o fenómeno da agressão neles de modo a perceber como é que este se gera e de que é que se alimenta.
 

Meditação

Uma das coisa que me vem preocupando cada vez mais é a absoluta falta de tolerância dos socialistas. Apenas para esclarecimento comunistas, blocos de esquerda, maoistas, e mais o que lhes passe pela cabeça são apenas variantes em grau e dimensão de socialista. Cada vez que alguém abre a boca e apresenta o mundo de outra cor, para além de ser incomodamente mal tratado (atingindo, em alguns casos mais agudos o insulto) é imediatamente tido como ofensor de uma qualquer moral intrínseca do interlocutor, ou seja acham-se pessoalmente ofendidos!

A História, no sentido de conteúdo de um passado que aconteceu, faz o devir do homem, e este deve enquadrá-la na sua circunstância.

Hegel defendia que a dialéctica ( como caminho entre ideias) tinha como princípio uma tese, à qual se contrapunha uma antítese, e das duas nasceria uma ( no mínimo) síntese. Ora, e infelizmente, cada vez mais encontro não teses, mas dogmas ( aquele tipo de ideias que não admitem questão e se atribuem largamente às religiões) em vez de teses. E há cada vez mais quem defenda os seus dogmas como se fossem teses, sem ter a mais pequena noção que o estão a fazer, pois fecham-se completamente no seu dogmatismo.

sábado, 15 de setembro de 2012

Pensamentos e afins

No Facebook leio a seguinte frase: "eu nunca desisto de ninguém."  

Não é uma frase fácil de se afirmar, pois que ao longo da nossa vida há os que nos esquecemos ( tantas vezes involuntariamente) mas isso não é desistir, será, por ventura afastar.
Há, e aqui é que a porca torce o rabo, aqueles que nos fizeram divergir e, de algum modo "cortar". As razões podem ir desde motivos de amor, a de dinheiro, delitos de opinião e outras tantas que a alma humana descobre. Mas, e voltando ao cerne da frase, o não desistir é ter a capacidade e abertura para o perdão e para a reconciliação. E nesse dinamismo aceitar a pessoa tal como ela é.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O que somos nós

Passeio na avenida. Calma e tranquilamente. Com um destino e algum tempo extra para lá chegar. Cruzo-me, de repente com alguém que já não via há décadas.
Cumprimentos do costume, actualização do estado social, de vida e outras mais informações de estilo. No final e com o intuito de manter o contacto, vamos àquela cena do tens um papel, um cartão, etc e tal. Para encurtar a coisa ofereço um cartão de visita meu e digo.
-É fácil, mandas-me um email e eu fico logo com os teus contactos.
Recebo um ar reprovador, de quem terá cometido a maior indelicadeza, e uma resposta gélida.
- Sim.. sim...
Percebi nesse momento que, afinal, nunca conhecemos as pessoas como pensamos.

Desejo sentir ardentemente

Desejo sentir ardentemente
Como um beijo quente
Um lábio húmido
Numa boca entreaberta

A eternidade num beijo
Um tempo de sempre
Completo, único e inteiro
Que fecha um abraço

Na tua alma entregar-me
E deixar-me cair
Como num sonho
Completamente enamorado

Momento absolutamente parvo

Descobri a razão profunda do actual estado dos políticos na época pós silly season ( estação estúpida).
Nos últimos tempos Portugal foi fustigado com fogos em todos os lados, nomeadamente, nos depósitos secretos de material ilícito de combustão ( assim, ffffffffff e reter a respiração um pedaço de tempo).
Assim os neurónios que ainda não estavam queimados, começaram a gargalhar violentamente. Daí às novas medidas da TSU e afins, foi um arzinho que lhes deu.

Ele há coisas assim

O tempo, essa coisa que escorre entre os dedos e nos deixa vagos grãos para o saborear, é algo complicado de gerir. Kant deduziu, e sem mais rodeios como um elemento fundamental, a par do espaço, onde nós apreendemos as coisas e o mundo. Ou seja nada acontece sem que aconteça um espaço e um tendo onde decorrem. Kant diz isto para nos dar a devida nota que o tempo não é nosso, nós é que nos colocamos nele, nós é que vivemos numa parte disso tudo que é o tempo.
Ora assim a tal história de querer agarrar o tempo é um pouco falta de senso, mas, vamos ser construtivos e vamos pelo caminho de aprender a estar no tempo de modo mais valioso e gratificante.

Tempo

Local - um elevador.
Hora - Manhã

Seguia eu para a entrada onde estão situados os elevadores e a meu lado segue também uma jovem que, para má sorte a dela, vinha de fumar um cigarro, pelo que trazia nas suas mãos o maço de tabaco e mais uma pequena bolsa feminina.
Noto que a marca dos cigarros é JPS - John Player Special e vêm-me à memória que esta marca da minha juventude patrocinou o brasileiro Airton Senna. As associações de ideias são muito rápidas e fomos entrando no elevador e não resisti de falar coma rapariga.
- Sabe que essa marca de cigarros foi um dos patrocinadores de um grande piloto de formula 1, o brasileiro Airton Senna.
Ela olha para o o maço, e depois para mim, e antes que as portas se fechem ainda diz.
- Vou ver isso na net.
Definitivamente estou velho! Lembrei-me de imediato de conversas várias que fizeram comigo ao longo de vários tempos em que alguém, cuja idade era uma ou mais décadas acima da minha, me informava, também assim, casualmente, um pormenor qualquer que envolvia uma pessoa que tinha tido notoriedade. Eles foram os cinco violinos, boxeurs, banqueiros, pilotos, etc... . Na altura eu sorria, e por educação agradecia a informação e seguia o meu caminho na minha vidinha.
Hoje, e graças à internet, podemos num ápice confirmar ou reforçar a indicação que nos é dada, coisa que era raro conseguir ter à mão um meio adequado para confirmar um fait divers desta natureza há 30 ou 40 anos.
Outra coisa, e mais arrasador, é que apesar de não me sentir minimamente com a idade que tenho, estou cada vez mais a ter as mesmas atitudes que via nas pessoas com a minha actual idade.
Mais dia menos dia começo a pedir o lugar para idosos nos transportes públicos!

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Maria da Saudade

Maria da Saudade era a serenidade em pessoa. Desde criança que convivia tranquilamente com o mundo. Crescera e fizera-se mulher sem nenhuma condição de nota. Aprendera os ofícios próprios das mulheres, e no dia do seu vigésimo aniversário seu Pai disse:
- Maria, está na altura de te fazeres mulher. - A Mãe olhava para a filha ao mesmo tempo que acenava que sim com a cabeça. - O Joaquim Simões veio no outro dia fazer-me uma conversa que se lhe dava por bem que ficassem com o filho dele.
Maria da Saudade baixa a cabeça em sinal de respeito pelas palavras do seu Pai. Esta conversa estava já atrasada, pois que ela e o Joaquim já tinham falado nisso, bem como noutras coisas há muito tempo, mas sabia que, para que as coisas corressem de feição o melhor era esperar por esta conversa.
Já havia quase um ano que eles se tinham entendido. Tinha tudo ficado marcado nas vindimas do ano passado. Tinham corrido as cepas lado a lado e a conversa foi-se fazendo. Começava com aquela conversa de ocupar tempo, entre um e outro cantar. Era conversa inocente e sem objecto mais que passar o tempo. Acontece porém, que numa das pausas, os olhos de ambos encontram-se de um modo especial. Brilha uma luz que em silêncio deixa em cada um a sua impressão. Ela, apesar de afogueada do calor do outono e da labuta, ainda vai buscar sangue para lhe dar uma cor ainda mais rubra às maçãs do rosto. Baixa a cabeça para limpar a transpiração do seu rosto, ao mesmo tempo que se pergunta a si mesma se é mesmo aquilo que ela pensa que é. Olha novamente para o Joaquim, e vê nele o rapaz mais formoso da jorna.
Ele, por sua vez, sente o sangue a golfar nas veias do pescoço e retendo a direcção do olhar nos olhos dela, passa o polegar pelo bigode, pretendendo com esse gesto dar alguma indicação que, curiosamente, nem ele percebe. Apesar de ela ter mudado o olhar, ele insiste na sua pose e mantém o fixação do olhar. Antes que seja tempo de voltar às cepas, oferece-lhe a sua água. Ele pára. Mede-o ao mesmo tempo que lhe mede a intenção, dando-lhe variadas indicações nesse impasse, acaba por lhe responder.
- Agora não, obrigado. Talvez logo.
Desde esse dia que o contacto possível entre ambos se foi estreitando. Assim a notícia de seu Pai não lhe era estranha. Era o final de um jogo de mulheres que vinha sendo feito com o consentimento das futuras comadres. A vida ajeita-se, ou consegue-se dar aquele jeito.
A casa do jovem casal fez-se depressa. Bastaria um quarto e uma sala. Mais, e se necessário fosse, logo se arranjaria o que faltasse. A sensatez própria de quem sabe que a um dia se segue o seguinte.
A festa da boda, foi um dia de descanso para alguns, que se sentaram de manhã a comer e só à noitinha, já sem noção da vida, nem do tempo, escorregavam para um conjunto de qualquer coisa que se parecesse com uma cama.

Estou aflito

Começo a ficar entusiasmado com a Gertrudes! Já lhe dei mãe, avós, bisavós e trisavós. E tudo isto porque uns miúdos estavam no quarto a dar azo ao seu afecto! Não há-de a vida ser complicada, caramba!

A Gertrudes

Nos cantos de um espaço que, com alguma boa vontade, se poderia chamar casa descansava uma jovem que ainda não tinha trinta anos, e já carregava a sua sétima gravidez indesejada. A seu lado, e sobre uma serapilheira que cobria um pedaço de feno estavam as três filhas ainda vivas. No outro canto desse espaço uma mesa com um castiçal onde de tudo um pouco acontecia, desde a preparação da refeição ao seu consumo, bem como todas as restantes necessidades que se mostrassem evidentes.
No tecto, para além de restos de teias de aranha em abundância, havia também casulos de vários tipos de traças, moscas e outros insectos. Na parede próxima ao balde de despejos crescia uma mancha verde que outrora se havia iniciado como um simples sombreado de bolor.

( Um quadro tétrico, possivelmente bem próximo da realidade de muita pobreza que era comum nos bairros mais pobres das zonas industriais de Lisboa. Podia daqui nascer uma heroína bem à maneira de um estilo de literatura, mas para isso teria que evidenciar luxo, abundância e, o fundamental desperdício maldoso da soberba do ricalhaço, mas não sou apreciador do género.)

Nesta casa estava prestes a nascer a quarta filha da Maria do Ó. Há mistérios cruéis que se tornam fardos na vida das pessoas. Maria do Ó, e do Ó por homenagem a Nossa Senhora do Ó, era-o pela gravidez plácida que dera a sua mãe, bem como a um parto rápido e muito pouco doloroso. Maria já seria o nome, se garota, do Ó, pela benção de toda a gestação e nascimento. Contudo, esse mesmo Ó tornou a vida dessa mãe e filhas num mar de dificuldades que levou a um total estado de descuido humano.

A avó da Gertrudes e por isso mãe desta Maria, era também ela Maria, mas da Saudade. Nunca houvera tempo para apelidos. Os homens que lhos pusessem depois de casadas. Até lá eram apenas Maria da Saudade filha de José Martins, o novo para não se confundir com o seu pai também ele José. Antes que cheguemos ào dia da criação do mundo, voltemos, então, à Maria da Saudade. Nasceu ela em 1840 nos arrebaldes de Lisboa, ali ao Campo Pequeno, tendo sido baptizada na Igreja de São Sebastião da Pedreira. Seus pais trabalhavam na quinta do Palácio das Galveias, sendo, no entanto junto à fonte que viviam. Tinham José Martins e Maria da Conceição uma vida regular de gente que vive do e para o campo. Os seus dias eram comandados pelo sol e pelas estações do ano. Fora as festividades religiosas e do povoado, pouco mais se fazia. Podia acontecer um passeio a Queluz, ou à Ajuda, mas era coisa sem hábito.
Maria da Saudade, nascida um mês após a morte de sua avó materna, fora nomeada no instante do seu nascimento pela extraordinária coincidência de ter os mesmos olhos azuis e um sinal rosado debaixo do queixo, tal como a defunta. "Que saudade dá esta menina da sua avó". Daqui a Maria da Saudade não durou sequer uma semana.

Arrepiei caminho

Na mini cómico-novela do Ai... que se vai seguindo, resolvi manter o ar sério e ponderado sobre o tema, ao mesmo tempo que meloso e corin telado. Fica, portanto apresentada a Gertrudes que espreita pelos buracos da fechadura! Fica a história em aberto, pois que agora segue a possibilidade de vir a contar a história da vida da Gertrudes e abandonar definitivamente o casal que se descobre. Ou outras coisas e voltamos à imensa possibilidade que podemos dar à nossa imaginação.

Ai... continuação

Ele sabia que apenas uma pessoa podia fazer isso, e se o fez foi por absoluto engano, ou então por uma raiva incontida.
- Não ligues, depois explico-te - disse enquanto com uma doce suavidade foi percorrendo com os polegares a linha das costas, convidando-a à continuação do momento que havia sido interrompido. Os corpos descolam-se e caem em silêncio sobre a cama.
Liga o seu mp3 de modo a que para além de aumentar a atmosfera, inibir que qualquer som menos adequado passe as paredes do quarto.
Em surdina, ela pede-lhe
- Tens que me explicar este toque - Havia nela uma inibição natural pelo facto de ter havido a possibilidade de uma terceira pessoa se colocar, pelo menos à escuta da sua intimidade. No seu terreno, tal era-lhe absolutamente sem o menor impacto, pois que para além de ter quase a certeza do que havia acontecido, pela natureza masculina do seu ser, não o perturbava mais que meio segundo. No entanto percebeu que havia que explicar a questão antes de o que quer que fosse. Assim, ajeitou-se insistindo em percorrer o corpo dela com as mãos, de modo a descobrir a nudez que o pudor dela havia colocado debaixo da roupa amachucada e começou.
- A Gertrudes, que sabes perfeitamente quem é...
- Sei? - Abrindo os olhos, ao mesmo tempo que retrai os braços, escondendo o seu peito.
- Sim, a empregada velhinha que de vez em quando está cá por casa. - desconsiderando a atitude e aproveitando a sua descontracção para recuperar o terreno visual perdido.
- Ah....
-Exacto, essa mesmo - E de novo se inicia o seu movimento de voltar a ganhar a confiança da intimidade dela. - Pois esta nossa querida amiga, apesar da sua proveta idade não perdeu o seu interesse, nem curiosidade sobre os assuntos mais íntimos da humanidade.
- Não percebo.
A questão era um pouco delicada. Como é que ele podia explicar-lhe que percebera que a Gertrudes, nos seus oitenta anos espreitava pelo buraco da fechadura quando pressentia que a temperatura no interior dos quartos ia aumentar? E, que isso já tinha um longo historial, pois que só recentemente se tinha apercebido dessa sua tendência. E, mais dramático ainda, havia que assegurar que ela nunca havia sido exposta, o que duvidava seriamente, e que tal não voltava a acontecer. Na sua cabeça ainda esteve a ponderar a possibilidade de criar uma história aproximada de modo a não perder a confiança dela na possibilidade de se manter a actual e futuras cumplicidades.
O ideal era manter-se fiel à verdade, pois que ainda havia a parte cómica da questão.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Leituras...

No caminho para o emprego, ou trabalho, pois que me esfolo bem enquanto lá estou, a carreira (termos antigos deliciosos!) deixa-me em frente a uma farmácia que utiliza muito bem a montra como forma de comunicação. Assim tinha a dita montra montra um qualquer fármaco ou marca que lema era o seguinte:

"Para acabar de vez com as alergias"

Às 9 da manhã a minha mente perversa leu isto:

"Para acabar de vez com as alegrias"

Mas é mentira, pois que, graças a Deus, insisto em manter o bom humor!

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Naquele dia que te vi

Naquele dia que te vi
Não foi igual aos outros
EM que apenas estavas
Nesse dia nasceste

Uma estrela no céu sorriu
Disse-me que eras tu
Uma alma diferente
Um caso único.

De novo olhei para ti
E vi a estrela
Que sorriu
Assim, como tu.

A brincar

Cinco continuações da mesma história ou circunstância. E, obviamente, poderíamos ter muitas mais. Dar um carácter social à questão, fazendo nota da dificuldade dela por ter sido abusada por um parente próximo, ou até violada. Podíamos recorrer ao choque com a entrada de um parente, de preferência de duas gerações acima de modo a vincar a diferença de gerações e de hábitos. Chamar a atenção para o descuido das opções com a ausência de qualquer meio de protecção, ou até com facilidade com que a situação se proporciona e absoluta inconsequência da mesma na vida de cada um dos interveniente.

A riqueza do ser humano reside nesta múltipla capacidade de perante um cenário ser capaz de se desdobrar em mil hipóteses de saída da história apresentada.

Trata-se, também, de uma ideia para se desenvolver em conto, ou numa série de contos. Seguramente que com outra história menos popularucha, mas que partindo de um mesmo princípio se derivassem várias saídas possíveis em que em cada uma, e sem ser demasiado óbvio se deixa uma mensagem ou uma visão específica de um tema, sendo que se apresentariam várias teses do mesmo tema.
Ou seja, tratou-se de uma mera brincadeira, exercício até de escrita, que abre caminhos a outras brincadeiras.

Ai... (parte 6)


- Quem é? - pergunta ele de modo decidido.
- Telepizza.
- Ah! Ok! A porta está aberta. É só colocar aí na secretária e levar o dinheiro! E feche a porta ao sair.
O rapaz da telepizza ao abrir a porta fica absolutamente surpreendido com a situação e tem bastante dificuldade em manter a encomenda equilibrada nos seus braços. Sente algum desconforto pessoal, pois não devia olhar, mas ao mesmo tempo não consegue deixar de olhar pelo quanto do olho o que se passa em cima daquela cama.
Procura a secretária onde, a custo, pousa a encomenda. Meio aflito com a situação segue para a porta atirando para o ar um obrigado e fecha a porta.
Tentando recompor-se encosta-se à porta, que, como ficou mal fechada, se abre completamente! Ainda mais aflito, cai de joelhos no chão e tenta chegar ao puxador da porta sem sucesso. Logo se levanta e com tanto incómodo como barulho consegue sair do quarto.
Fica branco e a tremer por todo o lado e percebe que na sua mão está a factura em vez do dinheiro que devia ter recolhido. Tudo o que podia correr mal aconteceu!
Como resolver o assunto? Espera um pouco e abre muito silenciosa e lentamente a porta. Percebe onde está o dinheiro e abrindo um pouco mais a porta consegue recuperar o seu dinheiro. Ao abrir a porta dá de caras com o casal a olhar para ele...



(Continua)

Ai... (parte 5)


De novo o toque à porta, desta vez mais nervoso e insistente.
- Jaime, porra, abre a porta! Ajuda-me que estou completamente aflito, pá!
Acontece, que a porta não estava fechada pelo que a porta abre-se e uma cabeça começa a surgir...
- Estou ali no quarto com duas caloiras e acabou-se o material. Deixa estar, que eu tiro do sítio do costume...
Sem poder perceber o que se passava, Jaime tenta proteger a sua amiga da entrada intempestiva do seu colega no quarto que se dirige nervosamente à mesa
 do computador donde retira uma lamela de preservativos.
- Eh, pá, obrigado! Depois devolvo em dobro... - diz sem se ter apercebido o que interrompera até que olha e repara.
- Eia que já fiz merda! Desculpem lá o mau jeito! - E sai batendo com a porta.

(Continua)

Ai... Parte 4


Do outro lado da porta ouve-se
- Querido despacha-te... Daqui a meia hora saímos e não te esqueças de trocar de roupa!
Rebolam da cama para o chão cuidadosamente de modo a ficar completamente fora do alcance de qualquer abertura inoportuna da porta. Tinha-se esquecido completamente que havia combinado com a sua mulher um programa para exactamente àquela hora!
Ela sente a tensão dele no ar e prende-se a ele continuando a beijá-lo e a estimulá-lo de modo a impedir que se afaste ou, sequer termine o que havia agora mesmo começado!
O jogo perigoso ganha mais intensidade com a tentativa de fuga dele, sem que seja um abandono do acto para a casa de banho contígua ao quarto, enquanto que ela se mantém senhora da situação, exibindo a sua experiência na concentração da atenção e motivação dele.
Num volte de face, consegue chegar à casa de banho e entra dentro do chuveiro, ligando a água quente.
Ouve-se a porta do quarto a abrir e o barulho dos saltos decididos a bater no parquet. Os dois advinham que ela entrou e que se dirige à casa de banho.
- Querido... Um banho... a esta hora??? Despacha-te, por favor.
Ela baixa-se instintivamente não perdendo o seu interesse, aplicando-se.
- Que desalinho em que está a cama! Podias ter arrumado a roupa! És sempre a mesma coisa. Vou-te preparar o fato. Mas despacha-te por Deus!

(Continua)

Ai... Parte 3


Ele esconde a cabeça dentro do corpo dela e começa a sentir aquela sensação de medo, misturada com um frenesim que verdadeiramente o enlouquece.
Nas têmporas formam-se rápidas gotas do sumo da sua alma que escorregam respingando no peito dela.
A tensão aumenta e ela sente um gosto especial naquele momento de vertigem, em que algo fica em suspenso, sem saber o que lhes está reservado.
- Pelo toque... suspeito.. - diz ele aumentando a pressão da sua transpiração. Já nas suas mãos sente a sudação da ansiedade.
Ela afasta-se deixando à sua vista toda a exuberância daquele peito firme que a idade oferece. Cada vez mais dividido entre o apelo animal que sente por ela e a própria circunstância de ser por estar ali com ela que o coloca naquele estado elevadíssima adrenalina.
Parece que passou uma eternidade, mas não passaram mais que de uns segundos. Poucos e dolorosamente sofridos.
Passos no corredor... e que se afastam...
O clima de tensão abrandou, mas houve qualquer coisa que ficou no ar... e ela sentiu essa coisa, esse algo.
Afasta-se dele e ele não dá por nada, pois ainda se encontra a absorver toda a energia que se apoderou dele e que, inevitavelmente se vai esforçar por libertar pela via que mais prazer lhe proporciona.

(Continua)

domingo, 9 de setembro de 2012

Ai... (Parte 2)


Faz-se um silêncio prolongado. Ninguém se dispõe a mexer mais que ajeitar-se o mais silenciosamente possível. Um abraço forte compacta os corpos num só.
- Deve ser uma alucinação... - responde-lhe com o outro beijo igualmente molhado junto ao ouvido.
De fora da porta volta a acontecer o toque. Desta feita mais decidido.
- Serviço de quarto.
Surpresa para ambos! Quem pedira o quê? Para quem? Porquê?
Ele afasta-se um pouco olhando para ela tentando perceber se havia algo que pudesse ter acontecido sem que ele tenha sabido. O espanto também se reflecte na sua expressão e puxa para o seu peito a camisa cobrindo-se instintivamente.
- Pode recordar-me o que pedi, por favor?
Um silêncio do outro lado da porta.
- Perdão, Dr., mas tenho a indicação que devo entregar uma garrafa de Alvarinho da Brejoeira para dois...

(Continua)

sábado, 8 de setembro de 2012

4 semanas

Já não me lembro da última vez que estive tanto tempo de férias. É quase um mês sem ter que me levantar a horas, um mês sem camisa, sem horários, sem obrigações.

Agora, a umas horas de voltar às restantes 48 semanas do ano, começa o frenesim de deixar feito aquelas pequenas coisas que obrigatoriamente temos que fazer. E vontade para isso?

D. Sebastião

E uma manhã de nevoeiro que não trazendo o salvador, trouxe um dia de praia magnífico. O curioso é que pelas 13 horas caiu novamente um nevoeiro cerrado, como que a dar instruções para se sair da praia.

Cá estamos em Setembro e no oeste, onde tudo acontece!

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Dá-me uma gota de ti


Dá-me uma gota de ti
Um pequeno nada teu
Onde estejas toda
E te possa levar comigo

Aquele pedaço do outro dia
Ou mesmo o sorriso
Do dia que te deste
Quando de novo me olhaste

Eu farei um pequeno cofre
Que guardarei para mim
Junto à memória
Que me deste de ti

Pois que amar é sempre
Um sabor que fica para a vida
Uma flor que vive sempre
E uma paz que é quente.

Ai... ( Parte 1)


E entram nesse quarto onde geralmente apenas dormia. Os olhos confessavam todos os pecados carnais em potência. Não moravam naqueles qualquer ponta de hesitação. Ambos queriam sentir o gosto da boca do outro, o paladar de cada beijo e aquele gosto único que fica quando se beija com paixão.
Atrás da porta que agora se fecha, ficam corpos que partem à conquista de uma entrega. Os beijos abrem caminho à descoberta dos corpos que numa serenidade quase encenada por um bailado de movimentos vão largando as peças de roupa, deixando os corpos entregues à nudez.
Tomando em suas mãos os seios cuja firmeza da idade os deixa vibrar a cada mão que passa, a cada dedo... A um beijo a cabeça solta-se e todo o corpo se arqueia enchendo o peito de ar numa suspensão de respiração que solta os braços e exibe o peito aberto.
-Toc, toc, toc - ouve-se uns nós de dedos que fustigam a porta.
No ar o cheiro imenso daquela entrega por acontecer, dos corpos novos e revigorados, do sangue quente que passa em cada em cada vaso sanguíneo.
Fecham-se um no outro, protegendo-se.
- Quem pode ser - sussurra ela,  num beijo molhado ao ouvido.

(Continua)

Lembras-te?

- Lembras-te?
- De quê?...
- Daquele dia...
- Qual, exactamente...
- Da passagem do ano
- Houve vários. Pelos menos aí uns... - e cerra os olhos enquanto faz contas de cabeça- ... uns trinta...
- Sim, claro! - diz, com um ar surpreendido e um pouco insatisfeito. - referia-me ao primeiro que passamos juntos.
- Sim... - diz
E um silêncio cai sobre a conversa.
Quem eram nesse tempo? Quem são hoje? E como será o amanhã depois de se ligar o fio dos dois tempos?

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Setembro

E mais um dia de calor e praia. Grandes férias que têm sido!

Praia até ao fim do dia!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

À porta de mim

À porta de mim
Alguém toca assim
Como que anunciando
Um tempo que já foi

e devia-o saber
Desse tempo
e dessa alma assim
Cujo tempo também foi

Mas não estou em mim
Acompanhando quem toca
Para ver se descubro
O que ainda há de mim.

Pausa

Um mão cheia de velhas e novas emoções. Basicamente coisas que andam por aqui a minar esta alma.

E, depois, este Setembro continua a insistir no calor e céu azul!

Nos últimos dias tem ardido metade deste meu Portugal. Deve estar o campo todo seco depois de um verão quente e seco. O efeito visível é uma nuvem castanha que se arrasta por quilómetros e se esfuma pelo mar.
O sol que fica atrás dessa nuvem deixa uma luz mais amarela que é habitual. É o efeito perverso da destruição, pois coloca nessa luz uma cor muito agradável. E quando cai sobre o mar, como já vem difusa, espalha-se mais.

Mas, ainda assim, é preferível não brincar com o fogo.

Hoje não faço bonecos

Hoje não faço bonecos
Tiro os óculos e escrevo
Palavras que dão sentido
A algo que insiste

Um mar de coisas
Feitas em afectos
Pedaços da minha alma
Que não se calam.

Vi-te na minha memória

Vi-te na minha memória
Eras tu, tal como sempre
E aquela nossa história
Um conforto quente

Foi ontem ainda
Que demos a mão
No tempo que não finda
Onde mora esta emoção

E amar-te assim sem pecado
Completamente em mim
Como se fosse um fado
Que não tem fim

E nas páginas que se viram
No grande livro da vida
Deixam afectos que nunca passam
Encantos da minha vida.

Escrever de enfiada

Escrever de enfiada
Como quem se confessa
Depois de uma vida de pecados
Dores mortas e outras
Já passadas ou resistentes
Ao tempo e ao perdão
Fico com a impressão
Que ainda assim
Não há padre que safe
Nem penitência que valha
Tanto escrita assim.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

E voltas sempre

E voltas sempre
Ao mesmo quarto
Ao mesmo tempo
À nossa memória...

Um calor que permanece
Dentro de mim
E que vivo-o egoisticamente
Sem tu o saberes.

A história que foi nossa
O tempo, ou tempinho
Momento, até
É a minha eternidade.

Palavra

E a palavra que te queria dizer
Aquela que ficou em mim
E que a carrego com dor
Um sussurro junto ao teu ouvido
Uma frase simples e directa
Que me fustiga o passado
Que teria feito a diferença
Que teria ditado outro futuro
E que, se calhar, teria sido presente
Um presente que permaneceria
Dentro de mim para sempre
E, afinal, teria sido,
apenas,

Desculpa.

Descias a rua

Descias a rua
Como quem saia da minha alma
Atiravas a cabeça
E não me sentias

Fiquei parado, estendido
A olhar para ti
Que caminhavas assim
Sem olhares para mim

Foste contigo
Levaste-me o sorriso na mão
A alegria, e até a vontade
de ter tudo

E tudo era apenas nós
O eu e tu fundido
Um pedaço de sonho
vivido eternamente

E, agora,
que somos passado
Quem sabe se terá havido
Um futuro por viver?

Há, isso sim
Um pássaro no ar
que vive nesse nós
Junto do arco-íris.

Há vozes de dor

Há vozes de dor
Angústias que se gritam
Peitos que se abrem
Para falar de amor

Mas que sei eu?
Se não me sinto assim,
sem peito nem dor,
apenas com amor...

Um amor sem fim
E, vê lá tu,
É por ti,
Meu amor

Percorro a minha história

Percorro a minha história
Como quem carrega uma cruz
Pedaço de coisa que pensa,
Que sente esta dor,
Ansiedade e mal d'alma,
Que não chora lágrimas,
Mas que fustiga o presente
E se projecta no sempre,
Dor que se arrasta
Permanece
E fica resistente
até de mim...

Corro solto

Corro solto
tal como o vento.
Nada trago comigo,
apenas o ar
de quem assim está,
a olhar para a vida,
esperando que, um dia,
ela olhe para mim.
E nesse olhar me diga
o que é isso de viver,
de haver um amanhã,
e, até, Deus.

Ponto do dia

Acabei de escrever uma dezena e tal de poemas. Uns melhores que outros, como era de esperar.
O curioso é que, durante estas semanas de férias, quase todas em regime de sequeiro, e de repente, jorra uma torrente em efeito e laxante cerebral!
Há dias assim.

domingo, 2 de setembro de 2012

De chapéu


Ora aqui está o chapéu que me tapa a careca neste verão. Uma simpática oferta num supermercado.
E está na hora de o utilizar. Faz sol e calor. Setembro que me troca as voltas!

sábado, 1 de setembro de 2012

E eis que

Setembro chegou e com ele um dia de calor! Ou seja o meu Setembro não é, pelos vistos este Setembro.
Pelo sim, pelo não, vou ali até à praia para espairecer ideias.