sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Poesia como vício...

"Qualquer dia, nós, os poetas, temos mesmo que pedir desculpa à vizinhança deste feio vício!"

Mais uma vez Torga ma sua vocação de poeta a sentir-se poeta.
Acontece tantas vezes que os poemas que faço, aqui e ali, são tidos como um feio vício que um tipo com quase 50 anos devia se comedir. E fico a meio caminho de saber se devo pedir desculpa ou se simplesmente devo deixar de escrever estas frases que caem umas depois das outras e, todas juntas, ambicionam chegar a um certo sentir.
Torga afirmou-se desde sempre como, essencialmente, um poeta. Pois, se calhar, essa é a grande diferença...

Setembro

Dizem as estatísticas que Setembro é o mês do ano em que mais se nasce. Para mim, no entanto, é o mês em que mais morro.

É o dia que encurta, o sol que já não é bravo e que, às vezes, ainda aquece e onde há sempre um vento que pedia mais calor.

E é a vida que recomeça, os trabalhos e as andanças. E, também, a escola. Já não a minha, mas três vezes mais minha e mais penosa.

Pequenas leituras III

Foi agora a vez de Francisco José Viegas e "A poeira que cai sobre a terra". 

De novo alguém com alma e mundo e que, apesar de contar uma não história, diz muitas coisas das pessoas e da forma como a alma se acomoda a certas figuras. Um livro que se abre como um policial, mas que no fundo nem o é. Há mortes, mas acabam por ser o fio condutor das pessoas que entram na história e não um assunto em si mesmas.


Pequenas leituras II

Jacinto Lucas Pires - Tudo e mais alguma coisa.

Uma sensaboria. Uma história sem graça alguma, inspirada num Cristiano Ronaldo, o que só por si já mostra o tipo de mundo possível. Depois mastiga uma realidade impossível nesse CR com uma linguagem paupérrima, carregada com bués e afins.
Um passeio no eu sem luz. Depois termina, pof, forçado e sem nexo com tudo o mais que foi dito e que se pretendia. Um mero e fraco exercício de escrita.

Tenho pena. Depois de ter lido o João Tordo, esperava mais de Jacinto Lucas Pires. Não tem alma que chegue para escrever a metro. E a Visão não devia ter publicado.

Pequenas leituras

Descobri uma mini-colecção de livros da Visão. Contos inéditos.

Vasco Graça Moura - Duas mulheres em Novembro.

Interessante a forma como desenvolve uma pequena história. Há muito mundo na forma como as personagens são apresentadas. No desenvolver da narrativa tive claramente a impressão que se apaixonou pela narrativa, e passou a ser uma história, e depois, num ápice acaba. A indicação da Visão devia prever um determinado número de linhas ou caracteres.

Uma boa companhia.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

fazer

Uma coisa curiosa que se passa nas férias que se conjuga com o verbo fazer. Trata-se da sua negação, ou mesmo redução ao estado quase inanimado.

É, sobretudo, tempo de calmaria e tranquilidade. Leitura e posição horizontal.

domingo, 26 de agosto de 2012

Arelho

Ontem, tal como sempre que aqui estou, vi o sol a deitar-se à minha frente. É sempre um momento mágico, cheio de cores e de beleza e, sobretudo de serenidade.

Em Junho, quando este momento é mais tarde no dia, as cores são também mais intensas. Ontem com uma ligeira sombra de pequenas nuvens deixou o sol uma atmosfera ponteada de pequenas bolas de algodão que de branco passaram primeiro para um lilás rosado e quente que depois foi perdendo o calor e esmorocendo para o lilás cinza que se confundiu com o azul forte da noite.

E ao fundo, na Foz do Arelho, aos poucos as luzes foram-se acendendo, espelhando-se na lagoa, dando o seu espectáculo habitual.

A foto de fundo deste espaço é Junho no Arelho.

Quantas vezes

"Sou este jornal sem data
que traz a infausta notícia
que ninguém leu..."

Torga leva-me, mais uma vez, para aquela área de mim onde, infalivelmente, vivo comigo mesmo, onde

"Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!"

Tal como aqui. Há uma vida interior imensa dentro de cada um, ou pelo menos também existe dentro de mim. E nessa vida, há imensos momentos em que penso, vivo, sinto e até vagueio nesses jornais sem data que publicam notícias infaustas, e até terríveis e tenebrosas que ninguém lê. Para além dessa abanar da consciência, da dor que crava a alma, há também, e que Torga menos manifesta, ou outros momentos em que somos aquela revista social cheia de cores e de notícias leves, alegres, bonitas, sorridentes e absolutamente amáveis... Mas essas, inevitavelmente todos as lêem no nosso rosto!


sábado, 25 de agosto de 2012

Finalmente!

Tinha planeado um longo encontro com o Diário de Miguel Torga há mais de um mês. Acontece, porém, que os ditos livros se encontravam num saco que me havia esquecido no Arelho. Daquelas coisas absolutamente estúpidas de acontecerem. Tive  o cuidado de levar um saco, retirei da estante, confirmei tudo e coloquei num saco próximo da porta, logo, e na minha cabeça, assunto tratado. No entanto o saco ficou em terra!

Recuperado do saquinho e seu conteúdo, vamos a isso!

"Pondo como condição que não haja mentira em absoluto no que diz, quem é mais aqui-del-rei: quem acrescenta, enriquece, aumenta e vivifica as coisas, ou quem as diminui, amesquinha, empobrece, achata e reduz a nada?"

Torga, na sua crueza essencial, faz a pergunta que tento vezes sem conta ser a pergunta orientadora das minhas opções. O que interessa de facto mais? O que é de acordo à coisa em si, e por isso dá mais valor ao que se pensa sobre os assuntos, sobre os acontecimentos, sobre as opiniões, etc, etc, ou o que me dá mais consolo, me ajeita mais à minha posição, o que me defende mais, o que me protege mais?

Quantas vezes em discussões de variadíssima ordem se percebe claramente que os argumentos apresentados pela contraparte são viciados pela sua alma, pela sua amputação da liberdade de ir mais além e se queda em rodriguinhos sem sentido? Ou até, que a defesa de certos argumentos se faz pelo medo absoluto de se libertar das suas defesas em vez de olhar para o mundo com maior larguras de vistas?

O ser humano é uma criação divina tão diversa que nele consegue caber todo o pensamento porque nele se encontra o Criador.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Inicio

"Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?" - Clarice Lispector

Onde fica, então, o ponto zero? O momento em que tudo nasce, de onde tudo brota?
Há quem defenda a teoria da criação, e há quem defenda a do big-bang. Diferença entre elas é, entre outras conclusões mais longínquas, é a quem, e como, atribuir o momento zero.

Quem defenda a teoria do big bang deduz que terá havido um momento misterioso donde tudo começa a acontecer. Fica, no entanto, implícita a questão da ordem, da organização, da evolução que o big bang produziu. Ou seja, terá sido o dito big bang um acto puro sem consequências, ou continha já em si todo o devir donde se produziram todas as coisas? O big bang ( o grande estrondo, a grande explosão) que coisa é afinal?

As coisas que acontecem antes de acontecer, essas coisas anteriores não são outra coisa que o toque de Deus no tempo humano, a epifania. Há quem o veja como grande estrondo, enorme explosão e há quem lhe chame Deus.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Mais um poeta

"De que serve ao amante o amor que não germinará na terra infecunda" - Vinicius de Morais

O amor que não germina na terra infecunda é um drama de quem ama. Qual é a terra infecunda? Desconheço de todo. Admito, desde o fundo da minha alma, que a essência do homem é o amor e é essa a pulsão essencial do seu ser. Todos nos movemos por amor, para amar e para sermos amados. Assim não há terra infecunda.

No entanto, e sem nunca desdizer o poeta, aceito que a "terra infecunda" pode ser o facto de dirigirmos o nosso amor para alguém que, de todo, não entrou na nossa sintonia e não encontrou nenhuma pulsão afectiva connosco. Assim a dor do poeta já é mais sentida pois que pergunta então de que ser a quem ama, amar alguém que não devolve essa afeição.

Para além de ser o drama de tantos casos de amor, a ideia é mais profunda, pois que não devolve a afeição porque não gera sequer afeição. É como amar uma parede. Não há outro retorno que o retorno interior do amante de viver esse amor sozinho.

Será uma figura poética ou um drama de quem ama?
Acredito, todavia, que se formos amáveis ( nos tornarmos objectos/alvos de amor) acontece a afeição que poderá, eventualmente, até a vir a ser amor.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Algarve

De manhã, por ventura pelo efeito do silêncio familiar, o ambiente é absolutamente invadido pelo cerrar, roçar, abanar ou algo de entre estas todas actividades triturantes produzidas por sei lá que insectos.
E no crescendo desse inquietante som ambiente o calor vai, também ele, crescendo de modo sufocante.

É claro que é agradável este calor pois que tenho à minha disposição sítios para arrefecer o corpo, mas prefiro o ar mais ameno e temperado do Oeste. É menos à bruta.

domingo, 19 de agosto de 2012

Paradoxos

Florbela Espanca

"Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dores
Que fizeram de mim isto que sou"

A dualidade de sentir. Primeiro a noção que a poesia é fruto de dor da alma, seja ela ansiedade, angústia, ou o que quer que seja. E que por tal é incómoda, triste, depressiva.
Por outro lado gera uma riqueza de sentir que promove a produção de poesia ou qualquer outra forma de expressão do sentir humano que, em alguns casos pode até ser arte.

Desejarei a terceiros que sejam apenas felizes e satisfeitos, contentes até com vida e esta coisa de se ser humano, pensante e mortal ou que lhes venha à alma a dor de se pensar?


Prioridades

Muitas vezes surgem questões em que a única razão é a hierarquização das prioridades em cada um de nós. O que revela como o bicho homem é um pequeno tirano de si mesmo. Já não bastasse as diferenças de opinião, segue o lugar onde se coloca a mesma opinião.

meditações de férias...

sábado, 18 de agosto de 2012

Férias

Em pleno.

Praia, piscina, desoras( o que me incomoda um pouco), bons momentos de leitura e tranquilidade!

Vamos fruindo o momento com muita satisfação!

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Fim de um ciclo

A frase fim de um ciclo é uma frase curiosa pois exprime diversas ideias subjacente a reter.

Primeira. Ao ser o fim de um ciclo, significa que algo voltou ao seu ponto de partida e se fechou. Chegámos ao ponto em que começamos. Nesta ideia repete-se um certo postulado de que nada se cria, tudo se reinventa sobre os mesmos moldes. A nossa experiência permite perceber que estamos a voltar a um ponto onde já estivemos. E este ponto é negativo. O que significa que os ciclos começam de um momento menos favorável e a ele voltará.

Segunda. A ideia de ciclo só é entendida porque negativa. Durante o período de crescimento ou expansão, momentos, porventura de maior liberdade e criatividade, o homem não é tão introspectivo, pelo que não se consciencializa dessa ideia de ciclo, mas apenas de novos caminhos a experimentar.

Terceira. Não há novidade. Em momentos de crise é preferível acreditar que voltamos a algo do que este é o fim do mundo. É uma noção de segurança implícita.

Quarta. A teoria da evolução sofre um duro golpe, pois que o ciclo é absolutamente diverso da espiral. O ciclo fecha-se em si mesmo. A espiral pode voltar a um local próximo onde estava, mas está além ou à quem de onde partiu, o que significa alteração.

A nossa linguagem reflecte a modo como o homem apreende a realidade e se fixa nela.


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A meio caminho

A cada momento que me aproximo do momento em que fico oficialmente de férias a vontade de me desligar cresce a par do avolumar de projectos para me ocupar nas férias.

Geralmente não consigo cumprir quase nenhum, mas estar de férias tem uma componente de magia, que mesmo sem cumprir todos esses desejos é maravilhoso, pelo que me eis a caminho da felicidade.

Gostoso!

Mais uma frase

"Já saiu do armário"

A ideia subjacente a esta frase é assustadora. A ideia que todos temos um armário do qual temos de sair....
Ou que o objectivo é que todos saiam do armário?


terça-feira, 7 de agosto de 2012

Desolado

Planeei reler o Diário de Torga. Fui à casa onde ele está, coloquei num saco, e depois desse assunto arrumado, fui tratar dos outros assuntos.

Resultado final. O saco ficou nessa casa e eu continuo a desejar reler os livros!!!!

Argh!!!!!!!!!!!

Coisas bonitas

Há frases que valem um gozo imenso quando as ouvimos.

"Estou cheio de serviço." - A noção de que o que se tem que fazer não vale um caracol, é um tédio, mas que rouba um tempo infindo! Um serviço, portanto!

domingo, 5 de agosto de 2012

Lazer

O que é o lazer? Será o não fazer nenhum, mais a caminho do ócio, ainda que este seja o nada ter para fazer, ou fazer algo que nos dá prazer, gosto ou satisfação? Diz o dicionário da Priberam que a definição de lazer pode ter as duas vertentes, o repouso, ou fazer uma actividade. No ponto da actividade não compreende o lado do prazer, mas acho que é uma ideia que se subentenderá.

Nesta dualidade de sentido o fim de semana é suposto ser a sua expressão, no entanto, quer pelos diversos afazeres familiares, quer pela própria vida, pouco tempo fica, de facto para esse lazer. E ontem, experimentei uns nadas desse gosto. A sensação de satisfação foi preenchedora e duradoura.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Uma chachada

Descobri na estante um livro de J. Rentes de Carvalho. Livro contos. Na capa a seguinte chamada "Uma das melhores coisas que aconteceram à literatura portuguesa. Um excepcional contador de histórias" - Blitz.

O livro arrasta-se, um pouco penosamente, pela vida do autor, recorrendo aqui e ali a histórias que já havia lido em outros livros. Há, inclusivamente, um dito sobre veterinários, de pouca graça, que se repete.

Não recomendo.


Tempo

Há coisas em é preciso que o tempo passe. Não só para que nós as entendamos melhor, mas também para que percam a exagerada dimensão que haviam tido.

Convém, contudo, manter em mente que o tempo de espera deve ser tratado com muita atenção.