sexta-feira, 23 de junho de 2017

Técnicas novas



Muito borrão


Nem sei


Um esquilo

Encontrei um esquilo assustado que era incapaz de amar. Dizia que já tinha tantos quantos podia amar e fazia a sua vida nos mesmos caminhos, saltando nos mesmos ramos e vivendo nas mesmas árvores.
O esquilo dizia que era feliz e por isso ria muito e muitas vezes. Encontrava sempre motivo, quando estava com os seus, para se fazer divertido.
Havia, no entanto, uma melancolia atrás do olho que quando estava só o esquilo aparecia. Dias havia em quase era lágrima, outras apenas tristeza e solidão. Conformava-se o esquilo que tudo mais não era que saudades de quem lhe fazia falta. Havia, assim, uma saudade ancestral que o acompanhava e que, por tempos o tomava. Sempre assim fora. Não sabia de onde vinha, porque vinha, apenas se instalava essa saudade e o esquilo limitava-se a suspirar. Talvez por isso o esquilo se rodeasse sempre dos mesmos.

Um dia o nosso esquilo simpático e sorridente recebeu um grande ligeiro encontrão e uma das árvores que tomava como certa de apoio e recolhimento é tomada para outro fim e sai da sua pequena floresta. Sem perder o seu rir, o esquilo refugia-se e fica mais desconfiado. Aceita apenas o que lhe é indubitável e torna-se mais desconfiado. Sem dar por isso, acentua mais a sua saudade original.

A floresta do esquilo é limitada, amplamente conhecida nos seus limites. Os limites da sua segurança. Limite, também da sua saudade. A mesma e a de sempre. E agora, com menos uma árvore, menos um espaço, menos esse conforto e esse apoio, que pode o esquilo ousar para ganhar outros caminhos? Outros afectos?

Numa primeira fase o esquilo fechou-se na sua floresta diminuída. Aninhou-se em campos mais curtos, mais fiáveis e seguros. E, apesar de se sentir mais protegido sentiu a sua saudade aumentar e com ela um melancolia e tristeza que o faziam menos simpático, menos sociável. Por mais que a primavera florisse à sua volta e as árvores se enchessem de companhias foi-se mantendo no seu canto, mais emsimesmado.

Um dia em que mal havia dormido sentiu-se incomodado com a luz que o solstício lhe dava, directamente nos olhos. Fechou os olhos e começou a sentir um calor e um conforto. Era como se esse Sol fosse um Sol mágico e naqueles raios havia uma força que lhe derrubava o cansaço. Num ápice, e sem pensar, pôs-se de pé e desatou a saltar em direcção ao raio de Sol. E correu satisfeito, confiante e alegre. Saltou de ramo em ramo, de tronco em tronco e de árvore em árvore. Quando deu por ele, estava em frente a um lago belíssimo com uma água fresca a cristalina, carregado de vida e animação. Vários esquilos juntavam-se em redor do um enorme monte de avelãs frescas que caiam das árvores. Olhou para trás para tentar ver a sua floresta e não a conhecia reconhecer no meio de tantas e tão diferentes árvores à sua volta.

Desceu e juntou-se aos outros esquilo que alegremente conversavam e comiam. Rapidamente se sentiu como se estivesse na sua floresta. Olhou para o Sol e agradeceu ao raio por o ter trazido para ali.

Lições de vida

Escondeu-se nas portas dos fundos da alma e fez-se refém de um remoinho de ideias que rodopiando à volta de si mesmo não permitiam resposta ou solução. O tempo passou e foi estabelecendo pontos de referência nessa turbulência onde, a tempos, repousava a sua confiança. Aos poucos a tranquilidade já só nesse turbilhão encontrava.

Como tudo tem um fim, um anjo desceu, nas suas vestes brancas, e estende uma mão com a pele mais macia e doce, de aromas encantados e aos poucos sacode o atordoamento e trás de volta à pele dessa alma. Sossegada nas asas de algodão repousa, finalmente um sono tranquilo.

Ainda que recuperada, a alma reviverá sempre os fundos e os turbilhões mais vezes que a pele doce e macia do encantamento.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Coisas que guardo

Guardo perto
Muito junto
E numa pequena caixa
Aquele odor único
Que, de olhos fechados,
Fico,  um ápice,
Lado a lado
Mesmo junto a ti.

E guardo mais,
Guardo o teu sorriso
Quando cheirava
Um cheiro assim.

Desabafando

Fui, mais uma vez, até à coisa pública pedir meças do seu agir. Perdi tempo, golfadas de ar quente, e muito entusiasmo, até aqueles que humildemente me deveriam escutar se disporem a perder o seu pequeno tempinho a me ouvir.

Há, cada vez mais coisas que, na democracia, me fazem sentir viver na mais dura tirania.

Com abandono

Ai....
E se...
O mundo,
As nossas certezas
Não fossem mais
Que o que corre,
A quente,
Nas nossas veias...

Haveria tanto que
Na força da consequente
Intimidade
Não mais seria
Que o sangue quente
Que jorra a cada batida
De um coração

Mais desenhos




sexta-feira, 16 de junho de 2017

Quotidiano

Porque é que guardas tantas fotografias de mulheres nuas?
Um dia talvez as vá desenhar.

Hoje fui um desses dias.

Ao velório

Apenas um caixão,
Como tantos,
Tantos que já vi.

Entre tantas flores
E outros odores
Um foto de ti.

Como pode ser
Que sejas tu
A estar ali.

Apesar de ser certo
Isto da Morte
É coisa que nunca entendi.

Mágoa, tristeza
Vazio e perda
Foi o que senti.

E foi por ti,
Para os teus
E para ti.

Somos passagem
Apenas o que tocamos
Vale por si.

A vela que se apaga
É, também a dor
Que morreu por ti.

Questão

Aquele que se esconde, fá-lo por medo ou apenas por insegurança?

Lendo 230

A sociedade do século XXI já não é uma sociedade disciplinar, mas, sim, uma sociedade de produção. Os seus habitantes já não são, por sua vez, “sujeitos de obediência”, mas, sim, sujeitos de produção. São empresários de si próprios.

Byung-Chul Han in A sociedade do cansaço, Relógio D'Água, Lisboa, 2014, pág 19

As mudanças de paradigmas são evidentes.

Aforismo

Esconde-se o que teme o que tem para mostrar.

Paradigmas

Vivemos numa veloz mudança de paradigmas, sobretudo, pela velocidade com que vivemos o tempo. Como tudo tem que caber no mesmo nanosegundo, não resta, pois, um minuto, sequer, para pensar menos ainda, tempo para o tempo que se demora a reflectir. E sem reflexão, não há moral que permaneça. tudo corre rapidamente para o mesmo destino do consumo, o lixo.