sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Declaração de amor

Menina:

Desde a magana da última ceifa que ando com esta metida nos cornos. Ora se a menina me ama e eu amo a menina, passe para cá um casal de beijos nos beiços e deixasse de lérias com o mê coração que abana por si como um chaparro numa noite de trovoada.

Menino:

Eu amo-o tanto como a porca ama a faca, mas sendo assim vou já de arriba pedir ao mê pai qu’eceite.

Adaptação de um dizer popular alentejano que ouvi há décadas em Vila Viçosa e decorei.

Meditação matinal

Vivemos um tempo bipolar. Os afectos dominam o olhar sobre a realidade.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Lendo 244

“Os adultos, à espera de um amanhã, movem-se num presente para trás do qual há o ontem ou o anteontem ou, no máximo, a semana passada. No resto não querem pensar.”
Elena Ferrante in A amiga Genial, Relógio de Água, Lisboa, 2014, pág 21

Este pedaço de texto, apesar de etr um sentido especial em si, autónimo, ganha outro sentido quando lido a sua sequência

“As crianças não conhecem o significado do ontem, do anteontem, nem do amanhã, tudo é isto e agora .”

Quer tomado na dinâmica do adulto, que pouco apela à sua experiência, ao fluir do tempo, mas apenas ao que lhe resiste na alma mais sensorial. Quer na dinâmica do homem, na sua globalidade, em que se aceita que a evolução de cada um nós reside na conquista de passado, bem como na capacidade de nele aprender e reconstruir-se.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Com uma ponta de humor


30 dinheiros e 30 anos

Uma rapariga muito jovem mas já adulta, quando todo o seu corpo explode com as hormonas que lhe irão dizer, daí a algum tempo, que a sua natureza lhe pede um compromisso para a vida, olha-se ao espelho e sente-se completamente confiante. Ambiciona uma carreira num mundo de glamour e de palmas. Ambiciona o mundo dos palcos. A começo faz o usual trabalho de figurante e aqui ou ali uma fala de passagem. É uma decoração do cenário, bonita decoração, exuberante, mesmo decoração. Não tarda, por isso mesmo, a ser notada. E, um dia, é chamada para uma entrevista com um produtor para um filme onde ser a segunda figura.
Dirige-se para a casa do produtor e é recebida por este que se apresenta apenas com um roupão sem mais nenhuma roupa. Depois da conversa Ah, desculpe, se calhar vim a má hora, ou será que vim cedo demais, etc, lá acaba por entrar e ter a referida entrevista. Nem vale a pena colocar mais acrescentos à cena pois não é difícil de prever o fim. Ela cede, podem até ter ficado ambos satisfeitos e o filme é feito.
Anos mais tarde, uns trinta, ela, rica e com a carreira feita, vem acusar o produtor de assédio...
Temos, portanto, uma virgem juvenil, absolutamente inocente, que, de tão chocada com a "proposta" acedeu desenvolver-se em concupiscências para obter o papel que ambicionava. Não se vendeu a um papel, não trocou o seu corpo por um trabalho, não, foi, coitada, assediada. E só 30 anos depois é que se lembrou de ter sido assediada.

Vou ali buscar um pano encharcado e já volto... Se a carne é fraca, se se vende por 30 dinheiros, não culpe o comprador. Judas, depois de ter recebido esses trinta dinheiros, enforcou-se com remorsos. Não esperou 30 anos.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Mais uma curta

E ele corria, veloz, até ao encontro dela e dizia-lhe:
- Temos que ser! Somos um para o outro. Somos o que foi para estar junto. Somos o mesmo. Temos os mesmos genes.
Ela olhava-o, com os olhos húmidos.
- E é por isso mesmo que me apartarei.
Desolado e desmanchado
- Porquê? Não consigo entender...
- Preciso de sal, de pecado, de ambição, de diferença. Que caminho haveria a fazer que não houvesse, de algum modo, já sido feito?
- Mais forte? Mais seguro?
- E o que ficava por fazer?
- Não era o que importava
- Como saberias?
- Somos sempre um escolha
- Não sei
Sem voltar as costas pergunta-lhe
- Precisas de um não...
Ela baixa os olhos  e pensa que até nisso ele sabe que eu isso.

Amor

Porque há palavras,
Há expressões,
Ideias e conceitos

E porque há vontade,
Paixão
E entrega.

E porque há sonho,
Futurização
E vontade de amanhã

E porque há impulso,
Um passo em frente
E desejo.

E porque se suspende o tempo
No momento do encontro,
No selo da união.

E porque há tudo,
Tem que haver
AMOR

Espero-te

Espero-te à meia volta,
Quando decidires voltar

Quero ser um optimista

Quero ser um optimista
E acabar um poema
Com um sorriso
Que derreta a alma.

Quero disfarçar a bruma
Do Inverno que se me instala
Onde a luz falece-se
E a humidade se distende

Os dias mingam-me a esperança
Diluem-me a vontade e
encurtam-me o tempo.
Quero ser um optimista


Um poente

Há um poente que me leva...
Sigo-o na luz
Que ganha amarelos
Que se alaranjam...

Sigo-o na esperança
De haver um amanhã
Que dê sentido
A tudo o que já foi.

Sigo-o na magia
Que nos amarra para a ilusão
Que é o Sol que se esconde
Na esquina do horizonte.

Sigo-o dormente
Olhando-o fixamente
É um tempo que passa
E não retorna, nunca

Sigo-o até à penumbra
Como se fosse um silêncio
Que se instala devagar
E serenamente...

Há um poente que me leva
E eu vou todo nele.

Entre o desenho e banda desenhada


Mais uns desenhos




terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Corre Outono, corre

Ainda agora o Outono corre
Com as folhas a caírem...
Assim, em debandada geral...
Simplesmente soltam-se
E seguem o caminho do ar.
Já nada as prende
E menos as justifica.
E vão...
Desfazendo-se,
Desaparecendo
E alimentando a chão.
As árvores despem-se
Deixando ramos hirtos e retortos
Que deixam perpassar os raios oblíquos
De um Sol já cansado
E gasto de tanto Verão.
E corre esse tempo,
Este tempo até ao nascimento,
À volta do princípio do tempo,
Da refundação do ciclo
De mais um ano.



Gosto bastante


Despenteado


Três quartos


Comendo em pé


rostos



Bonecada solta sem história










Lápis apenas