quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Novamente

Num imenso enfado, onde repetia mecanicamente as tarefas de sempre e acumulava processos acabados que iriam para uma pasta de cartão castanho e se colocava ao lado de outras pastas que íam enchendo armários até ser altura de os atar e enviar para grandes armazéns onde repousavam sobre o pó de vinte anos... Fazia com os olhos semi cerrados com um sonolência febril de quem se esquece de tudo. Olhava para os lados e, assustado, havia quem estivesse satisfeito com o que fazia. Olhei para baixo, para os meus papéis e revendo-os um a um, levantando-os, cheirando-os, sentido mesmo o paladar... procurava onde é que podería alguém encontrar algum motivo para ter satisfação nesta coisa mecânica, vazia, repetitiva e sem novidade...
Volto a levantar os olhos, marejados de desespero, e noto que mantém um sorriso estúpido e imbecil na cara.
Não é possível.
Levanto-me discretamente como se fosse à casa de banho e passo junto a esse colega. No meio dos seus braços, escondido sobre o tronco arqueado o mesmo livro de banda desenhada da escola secundária.....

Sou um sonho mau que me persigo.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A vida alheia

Todos os dias quando entrava no autocarro fazia os mesmos movimentos de sempre, tirar o passe, passar na máquina e seguir pelo corredor e sentar-me no primeiro lugar que encontrasse. Preferia quando me sentava em frente a outros passageiros, frente a frente. Durante os 20 a 30 minutos do percurso aproveitava para inventar histórias, conteúdos e vidas que se enquadrassem nas caras das pessoas.
Lembro uma rapariga nova, talvez vinte, talvez vinte e cinco, talvez dezoito. Tinha uns olhos negros e incrivelmente vazios. O seu semblante era fechado. No Verão utilizava uns óculos escuros onde se isolava ainda mais. Era misteriosa.
Aos poucos comecei a admitir uma conversa impossível com quem evitava a todo o custo estabelecer contacto e comunicação.
- Chamo-me Margarida. Sim, tenho o nome de uma flor. Mas é apenas o nome.
E depois continuava
- Porque é que queres saber de onde venho? Já sabes que é complicado, que é difícil e, até, difícil de confessar. Mas gostas deste tipo de conversa sórdida. Achas que irás entender porque é que não olho, de que fujo e o que procuro...
Olha para a janela e ajeita os óculos à cara.
- Não há muito a contar que não tenha já sido contado. Tu vês filmes, não vês? É mais ou menos isso, um filme. Mas não é uma novela, porque as novelas são falsas, entretêm-te durante meses a fio e depois tudo é fantástico e acabam todos aos beijos. É tudo mentira. É feito para te viciar na compaixão, na pena...
Sou a personagem de um filme. Aos poucos sei que o filme vai deixar de ser de muitos e vai passar a ser só meu. O meu filme, a minha história. Ah! podes dizer a minha versão da minha história. Mas, e quero lá saber no que penses, pois que a minha história, o meu filme vai ser isso mesmo. Meu. A minha história. A minha versão.
E continuei a vê-la, fechada, com a cara virada para o vidro em silêncio...
- O meu passado? Importa isso? Sim, há maus tratos, violação, abuso... queres pensar em algo mais? Preferes que tenha sido na escola? No bairro? Por um amigo? Primo? Pai? É irrelevante quem foi ou onde foi. Aconteceu e queimaram-me os olhos por dentro.
- Ultimamente, e desde que trabalho, estou quase a ganhar a minha autonomia. Vou sair. Vou deixar para trás esse vício de sofrer.
Vês esta saia? Já fui eu que a comprei. Teve que ser até aos pés. E fechada. Mas liberta-me, é minha e é o meu corpo dentro dela.
Sabes que estou quase a chegar à minha paragem. Tens fé em mim? No futuro? Em Deus e na bondade? Se tens, acredita que a minha vida vai ser boa. E que a minha história vai mostrar essa volta.
Sorri-lhe
Sem me dar conta, ela ao levantar-se esboça um muito ténue sorriso.

Voltava de férias

Voltava de férias... férias? Se podia dizer dos 10 dias passados a correr em casa de uma tia ao pé da praia. Ainda trabalhava mais para não sobrecarregar a tia que dava tecto e cama para si e para os seus rapazes. Desde o supermercado à culinária, passando por tratar da casa e da roupa, ficava com o sabor das férias naquelas horas escassas que vestia o biquini e deixava-se escorregar para cima da toalha. E era capaz de assim ficar, passar até pelas brasas, antes de descer à beira mar e refrescar os pés.
Voltava de férias e tinha deixado o sorriso na praia, nas ondas que iam e vinham, tal como o seu olhar se perdia nesse movimento de avanços e recuos. Por vezes sentava-se na areia ainda molhada e assim permanecia.
Voltava de férias, com a pele cheia de sol, ainda quente, mas com a alma vazia, sem ter com quem partilhar esse calor.
E os dias iam passando, tal como o calor e o sabor salgado das férias. Aqui e ali, o sorriso voltava.
E um dia, olhando-se para o espelho, já não notava a marca branca do biquini, até isso se havia esbatido. Com o olhar no outro lado do espelho vestiu o soutien, ajeitou o peito e vestiu as cuecas de renda mais confortáveis. Deu três passos atrás e sentou-se na cama a olhar o espelho, como se fossem as ondas do mar. Era domingo, estava de férias....

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Meditação do dia da Assunpção

Tudo gira à volta dos afectos, as nossas casas de segurança, reduto último da certeza. E o pior que podemos fazer é mentir ou simular. Todo o tempo que perdurar esse engano, mais que tempo perdido, é tempo que deixou de ser vivido.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Voltei

Voltei à poesia
E tu não estavas lá.

Voltei onde volto sempre
À poesia.

Sincera recorrência
Triste insistência.